Práticas e aprendizados na formação docente em período pandêmico

Yasmin dos Santos Jansen de Oliveira

Primeira parte – Impactos da pandemia nos estudos acadêmicos

No ano de 2020, fomos atingidos por um vírus em escala mundial, pegando de surpresa a maior parte da população, que, até o momento, estava vivendo, no Brasil, a maior festa do ano: o Carnaval. Enquanto a grande maioria das pessoas estava em festas de rua, em viagens e shows, um vírus perigosíssimo, sobre o qual não tínhamos quase nenhuma informação, circulava na China e vinha se disseminando por todos os países em uma velocidade avassaladora.

Mesmo após o início das divulgações por parte da imprensa, o povo brasileiro desacreditava que essa “onda” chegaria até nós, e, com isso, vivemos, durante uma semana, uma vida normal em relação a trabalho, estudos e lazer. Chegamos a participar da primeira semana de aulas do primeiro período de 2020. Daquela semana, tenho uma recordação clara da professora Angela Carrancho, da PPP I de Avaliação, expondo diversas informações, orientando sobre o uso do álcool em gel, do cuidado em conduções e lugares de aglomerados, alertando, ainda, sobre a possibilidade de usarmos máscaras para nos proteger. Lembro-me de achar um exagero e de não ter a mínima noção de tudo o que poderia acontecer.

A avalanche chegou ao Rio de Janeiro em março de 2020. Após uma semana, a UERJ parou, assim como todo o comércio que não era essencial. A partir daquele momento, a ficha começou a cair, e pude começar a compreender a complexidade do que estávamos enfrentando, mas sem ter ideia de tudo o que ainda iria acontecer. O desespero era maior por conta da diversidade de informações que eram passadas. A cada dia as causas e soluções para o problema mudavam, se tornando difícil saber em quem acreditar. Só víamos os números de contágio e de morte subindo de maneira disparada. Ao mesmo tempo em que o medo de se contaminar era grande, algumas necessidades eram ainda maiores, como ir ao supermercado, principalmente diante dos boatos de que os mercados parariam de receber produtos, então, quem pudesse, teria que fazer “estoque” de comida dentro de casa.

Para além das questões pessoais, uma preocupação muito grande começou a crescer após um mês de lockdown(confinamento total): como ficaria a situação dos nossos estudos na UERJ. Foram meses sem resposta. Imagino o caos que foi para as pessoas responsáveis pelo funcionamento da universidade até conseguirem uma resposta e uma solução para sairmos da pausa nos estudos. De março a agosto de 2020, o sentimento em relação à continuação do curso de Pedagogia era de desespero, pois ainda não tínhamos informações concretas sobre o coronavírus, logo, a solução estava bem longe de surgir e, por isso, sabíamos que ficaríamos com os estudos paralisados por bastante tempo, considerando que teriam que chegar a uma solução que atendesse a uma quantidade gigantesca de estudantes que não poderiam sair de casa, haja vista que muitos não tinham a mínima estrutura para o estudo domiciliar. Em julho/ agosto foi divulgado um plano de ação para voltarmos a estudar por meio do Ambiente Virtual de Aprendizagem. Mesmo com todos os empecilhos – internet, computador, falta de informação sobre a nova plataforma – pude ficar aliviada, pois “perderíamos” somente um período daquele ano.

 Obviamente, a preocupação com todos os acontecimentos do mundo era intensa, mas acredito que o retorno do ensino, mesmo que de forma remota, durante o período acadêmico emergencial, foi, em um primeiro momento, essencial para eu conseguir concentrar minhas energias, meu tempo e meu foco em algo que valesse a pena. Não aguentava mais assistir à televisão e ser bombardeada com tantas informações negativas e pesadas para a nossa mente. De início, a indicação era a de que nos matriculássemos em até 3 disciplinas, pois era um período-teste e não sabíamos se teríamos resultados positivos. Contudo, com o receio de “atrasar” minha formação e por ter tempo “de sobra”, pois não estava trabalhando nem de forma home office, quis me arriscar e me inscrever em uma quantidade a mais de disciplinas, o que considero positivo. O ensino presencial sempre terá total preferência na minha formação. Porém, é necessário realçar que o ensino remoto da UERJ, por meio do AVA, foi um sucesso. Além disso, com o passar dos Períodos Acadêmicos Emergenciais (PAE), tem ocorrido reajustes aos problemas existentes. 

Quanto à influência da pandemia na minha formação, posso afirmar que ele teve, até o momento, dois impactos importantes. O primeiro impacto foi o medo, que implicou em não querer fazer nada, em ficar totalmente sem esperança ao ver familiares, amigos e conhecidos falecendo e/ou perdendo entes queridos, o que me fazia questionar o porquê de continuar me esforçando tanto para concluir a graduação, sendo que, a qualquer momento, sem explicação e sem chance alguma de lutar contra o vírus, eu poderia perder a vida. O segundo, veio na contramão do primeiro pensamento, pois foi quando pude perceber que tinha solução para o problema, uma vez que, através de estudos, foi possível criar uma fórmula que salvaria ou que, pelos menos, minimizaria a propagação do vírus, e isso trouxe de volta a esperança e a vontade de lutar pelo que realmente eu tinha por objetivo: minha formação como pedagoga.

Cursar pedagogia dessa maneira, um curso que, a meu ver, a prática tem extrema necessidade, tem sido difícil. Compreender teorias, cotidianos, autores, metodologias existentes, entre tantos outros conhecimentos, somente por textos, vídeos e salas de aula virtuais, que, muitas vezes, nos acanham em falar ou mostrar o rosto, foi e está sendo um processo complicado de se passar. Mas, como mencionei, com o passar dos períodos emergenciais temos nos adaptado e feito os ajustes necessários para melhorar nossa formação. A organização do tempo dedicado ao estudo foi a parte mais tranquila, pois eu já tinha o costume de concentrar um tempo para estudar. É preciso rigorosidade para estudar a distância: não procrastinar, separar o tempo correto para leitura, para produção escrita, para as aulas síncronas e, ainda, para a realização das obrigatoriedades, como responder a um fórum ou entregar um trabalho.

Segunda parte – Expectativas para o curso de Pedagogia antes do surto do coronavírus

De fato, estudar a distância foi completamente diferente do que planejei ao passar no vestibular da UERJ. Foram muitos meses de dedicação para conseguir êxito no vestibular da universidade que tem um dos melhores cursos de Pedagogia. Foi uma conquista memorável, principalmente por ser a primeira da família a começar o ensino superior, e, ainda, em uma universidade pública.

A rotina do primeiro período foi bastante extenuante. Com pouco tempo de experiência, já iniciamos o curso com nove disciplinas pré-definidas. Tive alguma dificuldade de compreensão e adaptação, pois as disciplinas iniciais são muito teóricas e a ideia ao ingressar na faculdade era a de aprender as práticas do cotidiano, assim como a didática e as metodologias.

Minha rotina se iniciava às 5:30h da manhã, quando eu acordava e me organizava para sair de casa às 6h. Por volta das 6:15h, pegava o metrô e chegava cerca de 15 minutos antes de iniciar o primeiro tempo de aula. Era possível pegar o metrô às 6:30h, mas só quem pega metrô diariamente sabe a diferença que 15 minutos fazem em relação à quantidade de gente. No primeiro período, as aulas iam até às 12:20h, o que era bem desgastante, pois tínhamos três disciplinas diferentes no dia – ao contrário de como estava ocorrendo nos PAE I, II e III, durante os quais tínhamos apenas uma disciplina por dia e por turno, o que, pessoalmente, acho mais válido. 

Assim que entrei na faculdade, arranjei um emprego de jovem aprendiz. Por isso, saía da UERJ direto para o trabalho e só chegava em casa por volta das 18h. A partir das 18:30h, então, eu dedicava o meu tempo para fazer as atividades assíncronas (como chamamos atualmente), os trabalhos, a leitura de texto, focalizava nas avaliações e assistia aos vídeos. A rotina era cansativa, mas, desde o primeiro período, eu tive dois alicerces para conseguir êxito nos estudos: minhas amigas Luiza e Sabryna, que fazem a PPP e a maioria das disciplinas comigo. Conheci-as na primeira semana de aula e, desde então, nossa parceria só cresceu. Para além da realização de trabalhos em dupla/ trio, nos ajudávamos lembrando do que precisávamos fazer/ estudar, contávamos umas com as outras para a explicação de conteúdos que ficassem mais confusos e, também, na organização das disciplinas que nos inscreveríamos. Fizemos desde o primeiro período quase tudo juntas, como disciplinas, eletivas, PPP, busca pelas AACC, por bolsas de pesquisa e estágio e tenho certeza de que minha experiência universitária não seria a mesma sem o companheirismo delas.

Por fim, destaco que antes de começar o curso de pedagogia, já me interessava bastante por Montessori, Freinet e Paulo Freire, porque uma amiga, que já havia iniciado a faculdade antes de mim, comentava sobre a forma de ensinar que estes autores defendiam. Assim, ao entrar na faculdade, tive a oportunidade de conhecê-los melhor a partir das disciplinas dos períodos de 2019 e em eletivas que trabalhassem bastante com os estudos de Freire e Montessori, o que fez aumentar o meu apreço por eles.

Terceira parte – Motivações, expectativas, experiências e aprendizagens na PPP

No início do ano de 2020, antes de a calamidade sanitária se instalar, tivemos uma reunião no curso de pedagogia para que fossem expostas as propostas de cada PPP. Dentre as apresentações, três me chamaram atenção: uma do turno da noite, que tratava da Educação Infantil; a PPP atual, que trabalharia biografias, com ênfase em uma autora, nas viagens realizadas por ela e em suas contribuições para a educação; e outra PPP que tratava de avaliação educacional, que, naquele momento, foi a que mais me identifiquei, e era, até então, a minha escolha. Contudo, só tivemos uma semana de aula da disciplina, dando uma parada por conta dos índices de contágio até que voltássemos aos estudos através do PAE. Com isso, fomos obrigados a fazer novas inscrições em disciplinas, mas não sobrou vaga na PPP que eu havia escolhido no início. Desse modo, parti para uma nova jornada – esta PPP –, apesar da dúvida se iria gostar de trabalhar com um gênero textual com qual não tinha nenhum conhecimento ou apreço. Porém, ao passo que fomos trabalhamos em conjunto, e construindo o caminho na PPP, tive diversos aprendizados surpreendentes que contribuíram muito para a minha formação.

No primeiro período de PPP, tivemos a oportunidade de estudar e pesquisar diversos acervos escolares. Vimos a importância daqueles materiais para entendermos a história da educação e entendermos alguns acontecimentos da educação na atualidade. Com o apoio de algumas lives, as professoras Ana Chrystina Mignot e Nilda Alves deram o pontapé inicial para começarmos a pensar sobre a influência que aquele acontecimento histórico que estávamos vivendo teria na nossa formação e na educação, em geral, que culminou em um editorial do jornal “Educação e Imagem”, no qual cada aluno abordou a sua experiência pessoal naquele momento.

Partindo para a PPP II, tivemos a entrada de forma concreta no estudo das biografias, conforme exposto na reunião inicial. No final do primeiro período, tivemos que produzir um trabalho sobre uma biografia que teríamos que ler e estudar, que versasse sobre uma personalidade com quem nos identificássemos, de modo a compreender, não só a história do artista, como também as motivações do autor, os interesses e as curiosidades surgidas durante a escrita do livro. Imaginei que não aproveitaria muito dos momentos de estudo e de produção do trabalho por não ser uma temática do meu agrado, mas, a cada momento que conhecia um pouco mais da história de Irmã Dulce, personalidade escolhida por identificação e admiração, entendia a relevância das biografias, e, por isso, passei a me interessar pelo gênero. O trabalho trouxe contribuições pessoais bastante válidas, pois foi um momento de grande influência na construção de um novo hábito de leitura.

O momento de apresentação dos estudos das biografias foi muito enriquecedor, pois tivemos a oportunidade de conhecer a história de cada um e aprender novos elementos pouco relatados de diversas figuras públicas, como, por exemplo, Getúlio Vargas, Anita Garibaldi, Papa Francisco e Carolina Maria de Jesus, de modo que, talvez, não tivéssemos outra oportunidade de aprender. A atividade foi feita durante o período de 2020.2, tendo culminado em uma apresentação oral por meio do aplicativo Zoom, com o uso de slides montados pelos alunos e com o auxílio de alguns estudantes, como o Rodrigo Torres.

Já na PPP III, o foco dos nossos estudos foi a organização e os aprendizados desenvolvidos no âmbito do projeto “Café Biográfico”, pensado pela professora Ana Chrystina Mignot. O projeto contou com a contribuição de diversas pessoas muito capacitadas para sua realização, como as doutorandas Jacqueline Varella, Daise Santos e Eveline Gomes, o representante do ProPEd/ UERJ, Nilton Santos, professores e pesquisadores de diversas partes do Brasil, que aceitaram compartilhar conosco um pouco dos seus estudos, e as alunas da disciplina de PPP, que participaram buscando texto, bilhetes e cartas das pessoas estudadas pelos pesquisadores que iriam expor seus trabalhos de pesquisa.

No Café Biográfico foram abordadas diversas ideias interessantes, como a de egodocumentos, de escritas de vida, os desafios de biografar, as memórias de práticas de leitura e de escrita de pessoas comuns, a história de mulheres importantes que influenciaram na educação, com ênfase em educadoras invisibilizadas, educadores viajantes, religião, política e profissionalização da docência. Tive a oportunidade de fazer a leitura do texto “Felicidade Clandestina”, de Clarisse Lispector, na mesa “Memórias e práticas de leitura e escrita de sujeitos comuns”, do dia 06 de outubro de 2021. Tal escolha foi realizada com o auxílio da doutoranda Eveline, que esteve presente para tirarmos dúvidas e pedir ajuda no que precisássemos para a realização da atividade.

Ressalto, contudo, que a mesa que mais me interessou foi a “Mulheres, vida e educação”, pois abordou a vida de mulheres que foram e são invisibilizadas e esquecidas pela história da educação, como a história da Condessa de Barral, de escritoras de uma penitenciária feminina e de outras mulheres comuns que também faziam cultura e educação através de sua escrita. As três personalidades destacadas foram importantes para a construção da reflexão de como as mulheres continuam sendo desprezadas e abandonadas, de forma que o sexo masculino permanece dominando a educação, a escrita e a sociedade, em geral. Por isso, se faz necessário quebrarmos esse paradigma enraizado e construído durante muitos anos da nossa história.

Considero o meu percurso na PPP como um processo de muitas aprendizagens cognitivas, acadêmicas, profissionais e pessoais, peculiares e surpreendentes. A disciplina superou minhas expectativas e contribuiu imensamente para que eu possa dar início à minha pesquisa acadêmica para o trabalho de conclusão de curso, que, mesmo tendo uma temática diferente, com certeza levarei muitos aprendizados da PPP para a minha prática. 

Quarta parte – Planejamento e pretensões de estudos futuros

Uma das principais motivações ao ingressar no curso de pedagogia foi a de querer ajudar o meu irmão mais velho, que tem Transtorno do Espectro Autista, a estudar. Presenciei a dificuldade de encontrar escolas e profissionais capacitados para atender às necessidades individuais que meu irmão possui em sua trajetória escolar. Em vista disso, desde o início, já tinha certeza sobre a temática que trabalharia no meu TCC: as salas de recurso da prefeitura do Rio de Janeiro e os planos educacionais individualizados para crianças, jovens e adultos autistas.

Assim, na medida em que estudava disciplinas voltadas para a área da Educação Especial, ia fazendo a análise das professoras, compreendendo e anotando seus campos de pesquisa e de atuação, para que eu pudesse escolher uma orientadora que já pesquisasse na área que gostaria de pesquisar também. No 4º período, tive a oportunidade de estudar com a professora Cristina Angélica, com quem criei um vínculo e escolhi para ser a minha orientadora.

Quando da escrita do meu TCC, penso que utilizarei autores estudados na graduação, como Vygotsky, Montessori e Freire, pois eles tratam da questão da inclusão na escola, ponto-chave nos estudos da Educação Especial. Além dos clássicos, lançarei mão de outra autora com grande relevância na área: trata-se da professora do nosso curso de pedagogia, Rosana Glat.  Seus estudos contribuirão bastante, com especial ênfase nas seguintes produções: “Educação Inclusiva: Cultura e Cotidiano Escolar”, “A integração social dos portadores de deficiência: uma reflexão”, “Somos iguais a você”, entre outros, todos parte de uma coletânea chamada “Questões atuais em Educação Especial”.

Tenho o objetivo de pensar em ações que interfiram positivamente no cotidiano escolar desse público de alunos e, para isso, precisarei entender como é realizado, na prática, o trabalho com esses alunos nas salas comuns e nas salas de recurso. Ademais, busco compreender o porquê de tantas famílias possuírem dificuldade de acesso às salas de recurso e se há a necessidade de implantação de novas políticas públicas para a solução dos problemas. Acredito que com o estudo, além de trazer novos conhecimentos e, ainda, melhorar a minha formação acadêmica, também irá contribuir com esse campo da educação e com diversas famílias, como a minha, pois poderei reivindicar os direitos das pessoas que possuem necessidades educacionais especiais. 

Penso ser importante estudarmos, no trabalho de conclusão de curso, um tema que queiramos seguir profissionalmente após a finalização da graduação. Logo, fica nítida o caminho que busco seguir: a de ser uma profissional da área da Educação Especial, principalmente como mediadora. Para tanto, espero e já planejo iniciar uma pós-graduação em Psicopedagogia ou em Educação Inclusiva, dando seguimento à minha capacitação na área.

O presente trabalho trouxe reflexões instigantes sobre como conduzi minha formação durante esses 4 anos, em meio a tantas dificuldades e obstáculos, como a pandemia que trouxe o adoecimento de familiares e a perda de alguns amigos bem próximos; as crises financeiras que tomaram conta, deixando meu pai desempregado por algum tempo; e as doenças psicológicas desenvolvidas, como a depressão, a síndrome do pânico e a ansiedade, que contaminaram tão intensamente quanto o vírus da COVID-19. Mesmo com tantas adversidades, caminho para a última etapa da minha formação tendo uma bagagem de conhecimentos e de experiências consideráveis, na expectativa que, no próximo período, as circunstâncias melhorem e que possamos todos voltar ao ensino presencial, mesmo que com algumas adaptações.

Participação na live do Café Biográfico