Meu ingresso e regresso: um pouco da minha trajetória na UERJ

Walquiria Luquez

No dia 15 de março de 2020, vimos a notícia que o mundo estava enfrentando uma pandemia e, por isso, tudo iria fechar. Escolas, faculdades e comércio: tudo fechado. Só farmácia e mercado abertos. Hoje, olhando para trás, parece que foi um filme de terror. Deu medo, muito medo, e ficamos trancados em nossa casa. Nem mesmo os médicos sabiam o que estava acontecendo ao certo. Um vírus com alto poder de contágio; milhares de vidas perdidas por um inimigo invisível.

Lembro-me bem de no dia 15 de março de 2020 assistir ao jornal que anunciava a pandemia. Ruas desertas; tivemos que usar máscaras. Lembro que a tia do meu filho, que fez as minhas primeiras máscaras, fez com pano de algodão, que era a recomendação na época. Muitas pessoas que costuravam começaram a fazer máscaras para vender; era uma oportunidade de ganhar algum dinheiro, visto que muita gente ficou dentro de casa sem trabalhar. Sentia pavor quando tinha que ir ao mercado. Muitas pessoas começaram a trabalhar em casa. Parou a vida cotidiana de todo mundo. Até as praias ficaram interditadas para evitar aglomeração de pessoas. Shoppings fechados. Muitas lojas tiveram que fechar, por ficarem muito tempo fechadas; com isso, as vendas pela internet aumentaram muito. Todos nós tivemos que aprender o “novo normal”. Em todo o mundo, muitas mortes. Essa pandemia, esse vírus, matou muitas famílias.

Na semana anterior, eu tinha levado os documentos para a UERJ para começar um estágio. Infelizmente, não pude iniciar, pelo fato de todas as escolas estarem fechadas. Não passava um carro nas ruas. Famílias presas dentro de suas casas. Aqueles que não moravam na mesma casa ficaram muito tempo sem se ver presencialmente. Lembro-me que eu fazia muita chamada de vídeo com a minha família. No dia do aniversário do meu filho, eu fiz um bolo e cantamos “parabéns” junto com a minha família, de maneira virtual, porque não podíamos sair e passear na rua. O distanciamento social foi uma medida de proteção. 

Cientistas do mundo inteiro estavam em busca de modos de se produzir vacinas para conter o vírus. Havia, ainda, muitas notícias falsas (fake news), o que acabava atrapalhando as recomendações verdadeiras sobre a pandemia, de modo que diversas pessoas, por não acreditarem na existência do vírus, ficaram internadas, às vezes entubadas, no hospital, sobrecarregando o SUS e indo a óbito.

Quando tudo começou, já tinham sido iniciadas as aulas na UERJ. Foi muito difícil ficar sem estudar por dias. Então, começou a ter aulas remotas. A UERJ disponibilizou tablets e chips com internet para que todos os alunos pudessem assistir às aulas online. Para mim, foi difícil, porque, no final do ano, minha mãe descobriu um câncer de mama e eu não tinha condição psicológica para estudar. Por não saber usar o AVA direito, resolvi ficar só com a PPP.

A vida acadêmica mudou muito; tivemos que aprender um novo modo de estudar. Eu sentia muita falta das minhas amigas, dos passeios, de almoçar no bandejão, de abraçar, de beijar, enfim, da rotina do dia a dia. Tinha que higienizar tudo com álcool 70%; até hoje ainda faço isso, pois fiquei com toque de limpar tudo antes de guardar. Além disso, era necessário separar as roupas que se usa na rua. Sobrevivemos até agora diante de todo o caos que desabou sobre nossas vidas. O que é mais triste é que milhares de pessoas morreram, além daquelas que perderam seus empregos.

Minha vida acadêmica começou em 2019. Era a minha primeira graduação, o meu sonho sendo realizado, com a certeza de que a melhor escolha foi ingressar na UERJ. Conheci melhor a universidade e depois passei a morar em Vila Isabel. Uma amiga que trabalha há muito tempo dentro da UERJ foi quem me incentivou e me ajudou com a inscrição para o vestibular. Meu filho, que tinha acabado o ensino médio, também fez a prova para entrar e fazer sua graduação. Na verdade, essa minha amiga tinha se disposto a ajudar o meu filho, Yuri, para fazer a prova, mas, um dia, quando estávamos conversando sobre as provas, eu falei para ela que eu queria muito fazer faculdade, só não sabia como; ela, então, falou que era para eu aproveitar aquela oportunidade e fazer a prova também. Passamos o ano de 2018 todo estudando e correndo atrás de toda a documentação. Para mim, foi difícil, porque eu estava há muito tempo sem estudar, mesmo assim, abracei aquela oportunidade. Meu filho estudando de um lado e eu do outro. Acho que, quando se quer alguma coisa, seja o que for, tiramos força de onde não tem. No dia da prova, eu estava com vários sentimentos: ansiedade, nervosismo, alegria e felicidade em fazer a prova para entrar em uma faculdade junto com o meu filho. Depois de fazer a prova, fiquei muito ansiosa para saber logo o resultado. Foi quando, então, chegou o grande dia: havíamos conseguido! Foi uma sensação indescritível, de muita alegria e um pouco de orgulho de mim mesma por ter conseguido algo que parecia tão distante da minha realidade.

O primeiro dia de aula foi marcado por muita bagunça por parte dos alunos, principalmente pelos trotes e por conhecer a UERJ com os veteranos. Era tanta coisa boa, tantas novidades, tantas pessoas de várias partes da cidade! Eu ficava encantada de conhecer aquele universo tão diverso. Minha turma era bem grande e fazer amizades é muito importante durante a graduação, porque precisamos uns dos outros para ajudar no nosso processo. Eu já sou uma pessoa que gosta de fazer amizades, de aprender sempre com o outro e, desde o primeiro dia que comecei na UERJ, tive muito carinho e ajuda. Não tem como andar sozinho nessa vida. 

A primeira aula é às 7h da manhã e, por isso, eu acordava às 5:30h da manhã. Lembro-me das filas enormes dos elevadores. Lembro-me, também, que fizemos nove disciplinas no primeiro período; não sei como conseguimos, pois eram muitos trabalhos, provas, textos e muita xerox. Fazíamos trabalhos em grupos e apresentávamos para a turma. Eu ficava muito nervosa, uma vez que ainda tenho um pouco de dificuldade e timidez para falar em público. Sei que tenho que mudar esse comportamento, porque atrapalha na hora da apresentação dos trabalhos.

Educação Infantil foi a disciplina que mais me chamou atenção, apesar de ter tido várias outras disciplinas maravilhosas. Sinceramente, não sei falar de qual professor eu gostei mais, pois amei todos eles; cada um com seus ensinamentos.

Um trabalho que fizemos em grupo no âmbito da disciplina “Diversidade Cultural e Educação”, da professora Sônia Beatriz dos Santos, no segundo período, foi o de pesquisar e escolher uma diversidade dentro da UERJ. Meu grupo estava em debate sobre o que pesquisar. A professora Sônia Beatriz deu para a turma vários caminhos e temas que podíamos fazer e um deles nos chamou atenção – era sobre os alunos refugiados. Foi um trabalho penoso, mas de muitas descobertas. A professora, inclusive, elogiou o grupo, por nosso empenho em abordar um tema que quase ninguém conhece, de maneira tão bem organizada e humanizada. Importa destacar que, desde o início da pandemia, podemos ver que a UERJ vem lutando pela sua sobrevivência e para que todos os alunos e alunas, inclusive os refugiados, tenham a oportunidade de continuar a graduação e seus estudos.

No ano de 2020, antes de iniciar o terceiro período, tivemos uma reunião com a coordenação para obtermos informações sobre a disciplina obrigatória de PPP. Eram poucos os temas e o que mais me chamou atenção foi o relativo a Viagens Pedagógicas. Antes da pandemia, eu e as minhas colegas de sala estávamos bastante entusiasmadas com a PPP, principalmente diante da rotina repleta de muita leitura, muitos trabalhos a fazer e de planos a traçar. Contudo, em 2020, quando mal havíamos iniciado o ano na faculdade, foi anunciada a chegada do vírus, que ninguém sabia ao certo como surgiu, como era, mas que demandava parar tudo por causa do alto contágio, implicando na morte rápida de muitas pessoas ao redor do mundo.

 Quando a UERJ decidiu pela preservação da vida em primeiro lugar, ao ver a gravidade da doença, foram implementadas as aulas remotas, para serem feitas em casa, pelo AVA, por meio de salas virtuais, onde se pode assistir às aulas das disciplinas. Além do medo de tudo que estava vendo acontecer, eu entrei num processo dificultoso com minha família, uma vez que minha mãe descobriu um câncer, e, por isso, decidi ficar só com a disciplina de PPP, da professora Ana Chrystina Mignot. Eu escolhi a PPP certa, pois foi bom conhecer um pouco das viagens que as professoras fizeram e ter contato, mesmo que virtualmente, com outras pessoas de vários outros lugares.

Fizemos muitos trabalhos indicados pela professora e, juntos, aprendemos a fazer vídeo, slides, pesquisas e eventos – tudo virtual. De alguma forma, saímos da nossa zona de conforto. Tivemos aulas com muitas bolsistas e docentes que ajudavam a professora Ana Chrystina Mignot. Foram dias memoráveis de muito aprendizado. A internet foi a maior protagonista e, ao mesmo tempo, a nossa maior vilã quando caía.

Minha maior expectativa em relação à PPP era a de entender o que seriam essas Viagens Pedagógicas. O processo de aprendizagem foi por meio de muitos trabalhos ao longo dos quatros períodos, o que demandou, inclusive, a escrita de uma biografia – a minha foi a do Mussum. Eu cresci assistindo ao programa “Os Trapalhões” e meu pai levava a mim e a minha irmã ao cinema para ver os filmes deles. Nessa época, eram muito famosos e quando fui pesquisar qual seria a biografia que eu ia fazer, lembrei do Mussum, principalmente porque sua história de vida é muito bonita. Ele foi um guerreiro até alcançar a vida que teve, de muito sucesso. Mussum trabalhou de diferentes formas: foi cantor, artista, comediante, amava a Mangueira, fazia muitas palhaçadas e todos riam com suas piadas. Eu gostei de estudar a vida dele e de escrever uma biografia, uma vez que ainda não tinha lido nenhuma. Ademais, o que vai ficar da PPP é a importância de se ler uma biografia.

Nossa professora, Ana Chrystina Mignot, também teve a ideia de fazer um grande projeto com a turma, ao qual deu o nome de “Café Biográfico”. Nele, tivemos a participação de várias universidades, de diversos lugares, dentro e fora do Brasil. A cada dia de evento, na abertura, era apresentado um vídeo gravado de uma aluna lendo um trecho de um texto escolhido. Ficaram lindas as apresentações de cada quarta-feira!

O Café Biográfico foi um grande evento que contou com a colaboração de várias instituições, a saber: PUC-RS, UNEB, FFP-UERJ, PROPED-UERJ, UFPI, UNIRIO, USP, UNICAMP, UNIR, UFF, SME-RJ, UFS, UERN, UFG, Universidade de Sevilha – Espanha, UNESA, UNIFESP, UFRJ, UNILA, UFPA, ISERJ, UFPeL, El Colegio de San Luis de Potosi – México,  PUC-PR, Universidad Autónoma de San Luís de Potosi – Mexico, Universidade de Genebra-Suíça, Universidade Eduardo Mondlane – Moçambique e Universidade Pedagógica Nacional Francisco Morazan-Honduras. O evento teve início no dia 15 de setembro de 2021 e acontecia às quartas-feiras. A cada dia, tinha uma mesa com um tema diferente, na qual havia debates e apresentações de pesquisas. A última mesa aconteceu no dia 24 de novembro do mesmo ano, com um encerramento inesquecível. Todas as lives estão gravadas no canal do YouTube do ProPEd. Para mim, o Café Biográfico foi uma das atividades mais memoráveis da disciplina, principalmente por ser sido feita durante um período difícil, como a pandemia. Foi uma verdadeira troca de saberes, experiências e, ainda, uma Viagem Pedagógica.

O tema que eu pretendo estudar para o trabalho final é sobre a infância. O que me despertou o interesse de escolher o tema foi o fato de, no início do curso de Pedagogia, eu ter feito uma disciplina da qual gostei muito: “Infância e Política de Educação Infantil”, do professor Aristeo Gonçalves Leite Filho. Lembro-me que essa disciplina tratou do Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, o qual é um conjunto de normas que tem como objetivo proteger a integridade da criança e do adolescente no Brasil. Foi tratada da necessidade de se reconhecer crianças e adolescentes como cidadãos com direitos e deveres. Estudamos sobre o Conselho Tutelar, o que é e como funciona. Também estudamos e lemos muitos textos, de teóricos e pesquisadores, que contribuíram, com seus trabalhos, para a Educação. Por fim, diversos outros assuntos concernentes à disciplina foram abordados, com vistas ao entendimento desse grande universo que é a infância.

Eu pretendo estudar alguns autores, dentre teóricos e pesquisadores contemporâneos, que abordem o tema da Infância. Gostei muito de conhecer, na disciplina eletiva “Infância e autores clássicos”, do professor Aristeo Gonçalves L. Filho, o autor Celestin Freinet, que foi um professor francês que acreditava na importância da participação, da autonomia e dos interesses das crianças na construção do conhecimento. O autor lançava mão de uma metodologia pautada na cooperação das atividades, entendendo que as crianças são os sujeitos de suas aprendizagens e o professor exerce o trabalho de mediador.

Além de gostar do tema, meu objetivo com o estudo é o de ajudar, como outros pesquisadores que conhecemos e que vão na direção de tratar e estudar a Infância, salientando o quanto é importante que esses estudos tenham mais visibilidade. De todo modo, eu sei que, no decorrer do tempo e da graduação, vou amadurecer ainda mais sobre o que quero pesquisar e estudar nesse tema. 

Fazer e pesquisar com vistas ao trabalho final da faculdade requer, não só um envolvimento muito grande do aluno, como também um olhar de curiosidade para coletar os mais diversos dados e, assim, desenvolver o texto em questão. Falar da infância de uma criança é muito delicado, mas, ao mesmo tempo, é um tema político e social. Espero conseguir escrever, com clareza, sobre o assunto, tão pertinente, ressaltando questões antigas e trazendo novos desafios. Para tanto, penso que pesquisar em biblioteca será um dos caminhos a seguir.

Por fim, destaco que o título que dei para esse trabalho – “Meu ingresso e regresso: um pouco da minha trajetória na UERJ” – foi pensado para apresentar como foi o ingresso na minha primeira graduação e o que senti, descobri e aprendi ao ser aprovada para a faculdade, logo na UERJ. Além disso, quis mostrar as minhas dificuldades e a minha felicidade ao voltar a estudar depois de anos. O meu regresso, por sua vez, foi quando aconteceu a pandemia, a necessidade de pausar as aulas por causa do vírus da Covid-19, o que vivemos e como vivemos diante do medo. Famílias distantes, isolamento e mortes no mundo todo. Depois de dois anos, retornei às aulas presencial. Regressei, não da mesma forma, mas feliz por estar viva, ainda que bata uma tristeza ao pensar que milhares de pessoas não conseguiram chegar até aqui.

Participação na live do Café Biográfico