Memória e formação: a vivência de uma graduanda em plena pandemia de Covid 19

Leliane Lima

Certamente, quando eu estiver no fim da graduação e for realizar um balanço geral, a pandemia será um ponto que não poderá deixar de ser lembrado, pois impactou todo o meu processo, como estudante de pedagogia. Em pouco tempo, em 2020, o novo Coronavírus, que surgiu, na China, em 2019, tornou-se uma pandemia. Quem poderia imaginar que aquele vírus, noticiado pouco tempo antes, causaria tal catástrofe? Confesso que ouvi brevemente sobre o vírus, mas, assim como milhões de pessoas, não absorvi a informação e continuei a viver normalmente.

O momento em que percebi a gravidade da situação foi quando vi, na TV, o primeiro caso confirmado de uma mulher de 27 anos que havia retornado da Itália ao Rio de Janeiro. Naquele período, ainda não havia informações sobre como poderíamos nos proteger ou como o vírus agia no nosso corpo. Alguns dias depois do início das aulas, em março, eu começava meu 3° período e, após o primeiro caso confirmado no Rio, começaram a circular informações básicas de higiene a respeito de como lavar as mãos corretamente e da necessidade de se usar álcool em gel. Lembro-me, como fosse hoje, de estar no 7° andar na UERJ, junto com outra aluna de pedagogia, e ver passar na TV uma notícia que falava sobre a nova Coronavírus. Lembro de dizer à Letícia: “não demorará para fecharem tudo” e, de fato, não demorou. No mesmo dia, houve um decreto do, então, governador sobre o fechamento e a suspensão de diversas atividades, inclusive as acadêmicas.

Era o momento de ficarmos em quarentena por 15 dias em março. Entretanto, 15 dias tornaram-se meses e anos; hoje, completamos 2 anos de pandemia. Creio que ninguém imaginou que duraria por tanto tempo. Ao longo do período, vidas foram modificadas e perdidas. O impacto foi tanto que, certamente, deixará marcas permanentes, como uma tatuagem. A pandemia criou, em mim, uma tatuagem causada por uma dor que não será esquecida. Com a diferença de pouco menos de 3 meses, perdemos, para esse vírus, duas pessoas da minha família: meu tio, que tinha apenas 51 anos, e minha avó, que já era uma senhora de 80 anos. Minha família não teve tempo de superar um luto e já teve outra perda. Em casa, vi minha mãe começar a ter sua saúde mental afetada, a ter ansiedade, algo que ela nunca tinha tido. Do mesmo modo, minha ansiedade só aumentou, afetando, não apenas a minha saúde mental, como também a física. Não foi fácil superar e, por vezes, pensei: “como chegarei bem até o fim do ano?”. Até cheguei, mas não dá forma como queria. Tive que me isolar devido ao diagnóstico de Covid.

A pandemia afetou diversas famílias, assim como a minha. Vi pessoas próximas e vizinhos precisarem receber o Auxílio Emergencial do governo federal, assim como vi agências da Caixa Econômica Federal lotadas para que as pessoas pudessem ter acesso ao benefício, pois muitos perderam seus empregos e essa ajuda foi a única forma de as pessoas conseguirem manter ter o básico para as suas famílias. Uma grande rede de solidariedade foi formara para ajudar as famílias que precisavam de alimentos. Isso aconteceu muito onde moro, na Rocinha. Até hoje, um grupo grande ajuda famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica com alimentos e produtos de higiene.

A educação também foi afetada pela pandemia. Vi vizinhos e familiares, como primos, não terem acesso adequado a materiais para estudar em casa. Ter que adaptar a minha rotina para auxiliar minha sobrinha com as aulas on-line e suas atividades foi cansativo, mas foi uma forma de perceber como, infelizmente, crianças que têm a oportunidade de estudar em escolas particulares conseguiram manter seus estudos, diferentemente de crianças de escola pública. Isso se escancarou para mim quando a minha sobrinha já estava sendo alfabetizada e a amiga, da mesma idade, mal sabia identificar as vogais.

O maior ponto de esperança foi quando divulgaram o nível de eficácia das vacinas e quando começou a vacinação na Inglaterra, ainda em 2020. Posso dizer que foi um alívio ver pessoas sendo vacinadas e, ao mesmo tempo, revoltante ver o descaso do governo brasileiro em relação à compra das vacinas, ignorando o fato de milhares de brasileiros estarem falecendo todos os dias e de, mesmo assim, não mostrarem nenhuma empatia. O início da vacinação, no Brasil, foi um momento muito esperado, a ponto de olhar o calendário, semanalmente, pois ter a vacina no braço era e é uma forma de voltarmos, aos poucos, à vida que tínhamos antes. Entretanto, vejo que não é possível voltar 100% ao que éramos antes. Há um vírus circulando que ainda pode afetar pessoas. Perdemos mais de 650 mil pessoas que farão falta e que deixaram um vazio que não é fácil de preencher. Posso dizer, ao menos, que a pandemia trouxe algumas poucas alegrias, como a vinda de um animal que foi resgatado e que, hoje, é uma fonte de carinho; um novo integrante da família que veio para dar mais alegria. É achar um pouco de tranquilidade em meio ao caos.

Ao longo de 2 anos, prestei o vestibular para o curso de Comunicação e cheguei a passar para a PUC, com início no 2° semestre de 2018. Entretanto, desisti por não me ver mais no papel de comunicadora. Então, em 2018, continuei no pré-vestibular para tentar outro curso. Uma das opções era psicologia, mas, como percebi que as chances eram poucas, optei por pedagogia, pois são áreas que podem ser trabalhadas juntas. Não entrei na pedagogia por amor, por ter cursado ensino médio normal ou por ter pedagogos na família; foi pela oportunidade de ingressar na universidade que queria e foi o que eu consegui. Não tinha expectativas ao entrar no curso; a pouca noção que tinha era baseada no que pesquisava em sites. Entrei no 12° andar de peito aberto para conhecer o curso e deixar que a pedagogia me conquistasse e, no 2° semestre, me vi encantada por tudo que se tratava de desenvolvimento. Fui impactada pelo ensino presencial, pela forma como os professores ensinavam, pelo conteúdo e pela troca que havia entre a turma. A vontade que tinha de mudar de curso no 1° semestre sumiu, me deixei envolver pela educação e, de fato, não me arrependo do curso que escolhi. Cada semestre é uma novidade e isso me deixa totalmente perdida em relação a qual área de atuação seguir, mas sei que, seja qual for, me trará satisfação como profissional.

Com a chegada da pandemia, fiquei 5 meses sem, ao menos, ler um artigo, rever o que foi estudado anteriormente, e não me julgo por isso, porque não foi um momento fácil. Iniciei o PAE I totalmente perdida e, de certo modo, voltar a estudar tornou-se uma válvula de escape para preencher minha mente de novo. Foi difícil criar uma rotina para estudar novamente e acabei continuando com a organização que tinha no período presencial, mas foi em vão. Passei os primeiros períodos remotos procurando formas de estudar com qualidade. Percebi que deixar tudo de modo mais visual, separando por prioridade o que precisava ser feito, deu certo e, hoje, complemento com o uso do planner.

Admito que manter essa organização não é tranquilo, assim como ter um fluxo de estudos, principalmente por conta de barulhos externos e de atividades quem podem surgir e interromper o planejamento. Outra adaptação necessária foi compreender que, enquanto durasse a pandemia, a minha sala de aula seria uma tela de computador e uma plataforma virtual (AVA). Por isso, tive que criar o hábito de olhar, todos os dias, o que foi postado e se havia leitura e/ou trabalhos.

Pensar em como foi estudar na pandemia é lembrar de momentos difíceis e me perguntar como era possível, no presencial, conciliar mais de 7 matérias, leituras, pesquisas e, ainda, me deslocar até a UERJ diariamente. Em alguns momentos, ao longo desses 2 anos de PAE, desejei ser impactada da mesma forma como fui ao presencial, mas, infelizmente, não fui. Houve, contudo, pequenos momentos de satisfação por estar estudando assuntos interessantes em algumas matérias. Em determinados momentos, o ato de estudar veio como um peso para sobrecarregar, ainda mais, a rotina e, sentir isso, não me incentivou a tomar gosto pelos estudos, pelo contrário, me fez querer, constantemente, que o semestre acabasse o mais rápido possível.

No que diz respeito, diretamente, ao estudo no período, percebi que cada professor buscou trabalhar de uma forma. Uns foram mais compreensíveis, colocando poucos textos, deixando as tarefas para serem feitas conforme o aluno conseguisse, de acordo com a sua rotina. Outros, gravaram vídeos explicativos que davam gosto de assistir, ler e estudar. Houve aqueles que não agiram da mesma forma, que sumiram e só reapareceram para lançar atividade, sem, ao menos, ter uma aula síncrona para explicar o semestre ou dizer como fazer e entregar a atividade. Tive professores que enviaram materiais com conteúdos superinteressantes, mas com uma demanda de leitura muito grande, impossível de dar conta. Eram nesses momentos que surgia a vontade de desistir do semestre, mas sei que nenhum foi ou será igual ao outro. Haverá altos e baixos, assim como professores com dinâmicas que darão prazer em estudar e outros, não. O que posso aprender disso tudo é que, como professor, importa entender que, em uma turma, há diversas realidades e cabe avaliar como ensinar e fazer que os alunos aprendam de forma satisfatória e com prazer pelo estudo. É com base na minha experiência como aluna que buscarei ser uma pedagoga que entende seus alunos, independentemente da idade que tenham ou da situação que estejam vivendo.

A P.P.P. (Pesquisa e Práticas Pedagógicas) sobre viagens, biografias e políticas para a infância foi ministrada pela Professora Ana Chrystina Mignot e contou com a presença dos seus bolsistas de pós-graduação. A disciplina buscou, desde o primeiro semestre, abordar os diferentes pontos que comporiam o tema, os quais foram interessantes e importante para a formação discente.

No primeiro período, junto com a professora Nilda Alves, lemos e analisamos a obra “Práticas pedagógicas em imagens e narrativas”, de autoria da referida professora, que narra suas experiências como docente em atuação durante anos na profissão. Foi um momento de troca de experiências e de entender que o docente não é formado apenas pelo que se aprende na graduação, mas, sim, pelas redes educativas. 

Além disso, foi bastante trabalhada a questão da memória e da importância de se preservar objetos de memória, como livros e cadernos escolares, que podem ser usados como fontes de pesquisa para a história da educação. Pude ter essa compreensão ao assistir à live “Memórias e resistências: iniciativas de preservação das práticas pedagógicas”, promovida pelo ProPEd e realizada por Vera Gaspar, Jane Paiva (Professora da Faculdade de Educação da UERJ) e Renata Spadette (CEPEMHEP). Também merece destaque a live “Biografias de professores: possibilidades e desafios”, que contou com a participação de Priscila Garcez, Shayenne Schneider e Selma Perdomo. Garcez, na ocasião, falou do seu processo de pesquisa e dos desafios de estudar Judith Tranjan, por exemplo.

No segundo período, foi proposto que cada aluno escolhesse e lesse a biografia de um escritor, de um educador ou de uma personalidade famosa, como cantores e atores/ atrizes. O processo de escolha da biografia não foi fácil, mas, um amigo estudante de cinema, contou-me que o escritor e jornalista Nelson Mota havia escrito uma biografia, mas não sabia de quem era. Descobri que se tratava do cantor e compositor Tim Maia. A leitura da biografia foi prazerosa por ter uma escrita leve e ter abordado várias etapas da vida de Tim, do menino gordinho da Tijuca, que queria cantar. Tim Maia era dono de uma grande voz e de sucessos que são conhecidos por gerações. A cada apresentação feita pelos colegas sobre a biografia escolhida, foi possível ver o quanto se envolveram com a história lida.

No terceiro período, foi desenvolvido o Café Biográfico, iniciativa da linha de pesquisa “Instituições, práticas educativas e história”, cuja programação abordou temáticas variadas, como escrita de si, história e formação docente. Cada mesa contou com a presença de professores de diversas universidades do Brasil e do exterior. Os alunos da disciplina também participaram das lives ao apresentar, por vídeo, uma carta, uma poesia ou uma música que tivesse relação com o tema da mesa do dia. Pude compreender acerca do processo de pesquisa documental, por exemplo, por conta da dedicação das bolsistas Jaqueline, Eveline e Daise, que deram uma aula bastante rica de como realizar esse tipo de pesquisa e de como identificar sites confiáveis. Isso será essencial quando da pesquisa para a escrita da monografia, pois nos fará saber os meios certos de se obter fontes.

No que diz respeito ao Café Biográfico, em si, ele proporcionou o acesso às diferentes temáticas e pesquisas de pesquisadores. Destaco a primeira mesa do Café Biográfico, que teve a participação de Paulo Alvarez Domingues, da Universidad de Sevilha (Espanha), Maria Celi Vasconcelos, da UERJ, e Elizeu Clementino, da Universidade Federal da Bahia. Esse Café foi, de fato, o que me tocou mais profundamente, por conta das falas potentes que o professor Elizeu, ao falar da situação política do Brasil, da devastação da pandemia, de suas vítimas, do projeto Memorial Incalculáveis, que presta homenagem às vítimas da Covid-19, e ao chamar atenção para o descaso do governo.

O processo de escolha de uma temática para a monografia é complexo. Por isso, é preciso ter confiança e se sentir tocado por aquilo que se pretende pesquisar. Pensar no tema da minha monografia tem sido difícil, até agoniante, devido às incertezas que, com frequência, me atingem. Desde o início da graduação, a área de desenvolvimento infantil me chama bastante atenção, mas não mexe profundamente comigo.

Durante uma das aulas de P.P.P. IV, no início do ano, tive um momento criativo; veio uma temática em minha mente que, de certa forma, me deixou emocionada por ter partido de uma das memórias de infância da minha mãe que, ao me contar, passou a ser parte da minha memória também. Minha mãe, Dona Valda, nasceu no final da década de 1960. Além dela, havia mais 10 irmãos, que viviam no interior do Ceará. Meus tios e minha mãe, a partir dos seus relatos de infância, não tiveram acesso pleno à escola. Na época, tinham aulas com uma professora que faltava muito por passar por gestações seguidas. Eles aprenderam o básico, mas não foram alfabetizados. Devido à irregularidade das aulas quando iam à escola, meu avô passou a não deixar mais eles irem. Meu pai, José, nunca me contou como foi seu acesso à escola, na infância, mas sei que estudou até o atual 4° ano. Sabe ler bem e escrever pouco. Após ter tido um AVC, em 2015, e para conseguir se aposentar, teve que voltar à escola pelo EJA. 

Meu pai conta uma história interessante que, em alguma medida, se relaciona com a história e memória de minha mãe. Trata-se de uma senhora que estudou junto com ele, que, quando criança, foi proibida de estudar pela madrasta, enquanto os filhos dela podiam ir para a escola. A vida adulta chegou, ela se casou, teve filhos e, só depois de criar os filhos, conseguiu retornar à escola, pois viu que era um antigo desejo voltar a estudar. Tais histórias me fizeram ter o interesse de pesquisar sobre o analfabetismo e a inserção na EJA (Educação de Jovens e Adultos). O objetivo do estudo seria o de conhecer a trajetória educacional de alunos da EJA, maiores de 40 anos, que possam ter uma história parecida como as relatadas acima, com vistas a compreender quais teriam sido as motivações para estudar. Além disso, gostaria de poder traçar um comparativo dos motivos que levaram alunos mais jovens à EJA, para ver possíveis distinções entre as gerações no que se refere ao acesso ao estudo.

Compreendo que essa temática pode contribuir com a educação ao adotar um olhar cuidadoso em relação à importância da EJA. Buscaria mostrar para as pessoas que não tiveram acesso à educação a potência da EJA, no que se refere à oportunidade de aprender a ler e a escrever, de serem cidadãos completos, e de ter mais autonomia nas questões do dia a dia e segurança em si. Importa ver a EJA como um seguimento da educação que deve ser mais valorizado e investido pelo Estado.  Para o desenvolvimento da temática sobre o analfabetismo e a inserção na EJA, penso em alguns autores da área que poderão contribuir com a pesquisa, como Maria Clara Di Pierro e Osmar Fávero, teóricos que atuam com alfabetização, educação de jovens e adultos, políticas educacionais e educação popular.Além desses teóricos, já bastante estudados na graduação na disciplina de EJA, importa valorizar docentes da Faculdade de Educação da UERJ, como Socorro Calhau e Jaqueline Luzia da Silva, profissionais que atuam em áreas, como alfabetização de adultos, linguagem e educação. Por fim, destaco, ainda, Paulo Freire, educador brasileiro de grande influência na educação capaz de oferecer reflexões profundas sobre a EJA. Penso que suas reflexões seriam necessárias para desenvolver pesquisa em uma área que envolve sujeitos que passaram a vida sendo oprimidos pelo analfabetismo e poderiam, ainda, ajudar a compreender como o acesso à educação pode romper com essa situação de opressão. Ademais, além da contribuição teórica, considero que o uso de relatos e/ou questionários seria uma forma de aprofundar a discussão de maneira mais realista e que mostre, efetivamente, as motivações do retorno à sala de aula.

Participação na live do Café Biográfico