Guardados em armários, escondidos no fundo das gavetas, perdidos em meio aos documentos acumulados em pastas e caixas, as escritas expostas nas vitrines estavam, muitas vezes, esquecidos. Localizar, reunir e selecionar estes papéis constituiu-se em tarefa imprevisível Exigiu conquistar confiança e remexer lembranças de familiares, amigos, amigos dos amigos, esbarrando assim em risos, lágrimas e saudades.
Os textos manuscritos, datilografados e digitados, em variados suportes da escrita, em sua maioria, são de pessoas comuns e anônimas, de diferentes estações da vida, que aprenderam a escrever em cadernos de cópia, caligrafia, ditado e não se cansam de fazê-lo em agendas, diários, cartas, anotações de viagens, cadernos de receitas, registros de contabilidade doméstica. Muitas pessoas, de idade avançada, não souberam dizer por que preservaram o tempo da escola, dos amores, do nascimento de filhos e netos em seus baús de memórias. As crianças e os jovens também conservaram cadernos de exercícios, de deveres de casa e os cadernos de perguntas ou os de intimidade evidenciando que a sensação de fugacidade que marca nossa época contamina a todos levando a acumular papéis na tentativa de eternizar-se.
Cada um dos testemunhos reunidos nesta exposição representa uma concreta experiência de escrita, uma resposta à cotidiana necessidade de escrever. Constituem fragmentos vários de uma página conjunta: a que compõe os usos dados à escrita em situações comuns frequentemente ligadas à escola e à casa.
Em Memória da escrita cotidiana inspirada na exposição Memória cotidiana de la escritura, organizada na Universidade de Alcalá, em Alcalá de Henares, Espanha, em 1996, além da intenção de divulgar estudos sobre as escritas vulgares e ordinárias, como são denominadas, está contido o nosso secreto desejo de continuar localizando, reunindo e selecionando documentos que nos ajudem a constituir, futuramente, um acervo para investigações sobre a vida, a escola, a vida na escola e a escola em nossas vidas.
Antonio Castillo Gómez
Universidad de Alcalá
Ana Chrystina Venancio Mignot
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, julho de 2003
Centro Cultural / UERJ












Realizada em julho de 2002, no Centro Cultural da UERJ, a exposição reuniu documentos guardados em arquivos pessoais de amigos, alunos e professores da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Resultou do curso ministrado por ocasião do Seminário de Consolidação Temática da Linha de Pesquisa Cotidiano e cultura escolar do Programa de Pós-Graduação em Educação da UERJ, ministrado por Ana Chrystina Venancio Mignot e Antonio Castillo Gómez, da Universidade de Alcalá, Espanha, pesquisador visitante, com auxilio da FAPERJ.
