Formação em tempos de pandemia: o impacto da pandemia para o estudante de pedagogia

Anna Carolina Da Silva dos Santos

O eu ‘relembrante’, tanto como guardião de arquivos quanto na função de criador de mitos, molda um eu relembrado. O eu determina o mim.” (KOTRE, 1997) 

Em dezembro de 2019, conversando com parentes na sala de casa, lembro-me de surgir o assunto sobre essa nova doença na China, que, naquele momento, não era nada que assustasse o povo brasileiro. Porém, em janeiro, a doença começou a ser divulgada constantemente nos jornais locais das cidades, em jornais nacionais, passando a ser assunto na roda entre amigos, quando todos começaram a ficar preocupados com o feriado de Carnaval, festa de rua e blocos, que tinham chance de serem cancelados. 

Seguiu tudo normal para os amantes do Carnaval, mas dia 26 de fevereiro de 2020 o Ministério da Saúde confirmou o 1° caso de Covid-19 no país, o que gerou uma grande comoção na população, pois não se sabia nada sobre essa nova doença e, como muitos turistas vieram passar o feriado na cidade, pela reputação de ser o melhor carnaval do mundo, houve uma intensificação no processo de proliferação do vírus. Assim, infelizmente, os casos começaram a subir gradativamente logo depois do 1° caso e, dessa forma, minha vida toda mudou. A escola onde eu estava fazendo estágio como apoio pedagógico para criança com deficiência fechou, como tantas outras, a universidade também fechou as portas, as empresas foram quebrando em decorrência do mercado internacional que mudou completamente. Tudo parou. O mundo estava um caos completo, as pessoas desesperadas e minha família ficou num completo pavor dentro de casa e sair era somente para trabalhar e fazer mercado.

No cotidiano, o desespero aumentou quando as questões iam efervescendo: “como evitar? Existe vacina para isso?  Tem algum remédio para evitar? Qual tipo de máscara usar? Qual o risco de eu morrer se eu pegar?”. As perguntas pairavam no ar deixando muitas pessoas ansiosas, depressivas, com pânico de sair às ruas. Enquanto isso, em casa, as compras eram lavadas e limpas com álcool logo em seguida, sempre se tomava banho e se lavava a roupa após chegar da rua, se usava somente um calçado para usar em casa, entre outras precauções que tivemos que tomar para evitar pegar uma doença que estava matando cada vez mais.

Após meses, as universidades decidiram criar plataformas para os alunos presenciais darem continuidade aos estudos naquele momento tão delicado, sendo denominado pela UERJ de AVA- Ambiente Virtual de Aprendizagem. Infelizmente, muitos estudantes tiveram dificuldade em se adaptar ao ensino remoto e eu fui uma desses estudantes que não gostou nem um pouco, mas permaneci estudando, pois sempre foi meu sonho fazer um curso de nível superior. Ao longo do tempo, ao iniciar mais um período remoto e completar um ano de pandemia, fui me adaptando ao ensino e, por assim dizer, gostando da nova forma de estudar e entendendo que a minha idealização de como seria estudar em uma universidade pública sofreu mudanças ao longo da pandemia, portanto tive que adaptar minha mente a essa nova realidade. Sempre tive o desejo de ingressar em uma universidade pública pelas oportunidades que teria, como, por exemplo, trocar com pessoas de todo canto do mundo, conhecer excelentes professores em seminários e palestras, ir a exposições de alunos na universidade, participar de pesquisas, enfim, aproveitar o que a casa-UERJ tinha para me oferecer nesse período, mas tudo mudou e minha forma de aproveitar também teve que mudar. Tudo o que sonhei quando passei no vestibular mudou, principalmente depois do 1° ano de curso presencial.

Em 2019, passei em dois vestibulares, PUC e UERJ, mas a UERJ era mais acessível em questões de condução e oportunidades. Mesmo a UERJ não sendo minha primeira opção, fiquei muito feliz em passar para a melhor do Rio. Lá estava eu fazendo a matrícula sozinha, todos da minha família estavam trabalhando no dia, lembro que fiquei um pouco triste, mas logo depois uma amiga do pré-vestibular foi me encontrar e pude compartilhar minha felicidade com ela e andamos a UERJ toda e pude ver que minhas noites estudando valeram muito a pena. Estava, finalmente, andando pelos corredores da famosa “caixa cinza” com um cheiro aconchegante de café, com pessoas de todos os jeitos circulando e isso me encantava, pois sempre gostei de ver o que cada pessoa tem de diferente da outra e a UERJ estava me proporcionando isso.

Chegou o momento de estudar, já tinha passado o período de trote, que, infelizmente, não participei. Não tive a oportunidade de ter aquele encontro com os meus futuros amigos dos 4 anos seguintes, pois, como eu passei na reclassificação, muito grupos já haviam sido formados. De todo modo, não fiquei triste, pois já estava ali e ia aproveitar. O que me confortou foi ver que outra colega do pré-vestibular estava na mesma turma. Fiquei mais confortável e fiz amizade com um grupo logo depois. Minhas manhãs eram muito agitadas: acordava às 5 horas, pegava o ônibus 254 lotado, tomava café na cantina do 12° andar com as meninas, ou pelos corredores quando levava algo, tinha aulas com professores incríveis que me faziam pensar muito sobre a educação; já os intervalos eram na cantina do 9° andar, pois o salgado lá era muito bom. Lembro das rodas de conversas com minhas amigas e dos planos que fazíamos de ir a museus e visitar o centro da cidade, mas isso só durou um ano.

Logo chegou ela: a pandemia! Eu não acordava mais às 5h da manhã, não tomava meu café na cantina do 12°, não pegava um ônibus lotado e chegava na universidade contando o que ocorreu no meu trajeto para minhas amigas; minha rotina mudou completamente. Foi um período inteiro esperando notícias de como seria o andamento das aulas no semestre seguinte. Até que as aulas começaram a ser remotas, com telas separando toda forma de troca que estávamos acostumados. Infelizmente, desanimei, não do curso, mas da forma de como eu estudaria a partir daquele momento, pois os trabalhos em grupo não seriam mais nas salas de reunião da biblioteca do 12° andar (andar onde se localiza o curso de Pedagogia da UERJ Maracanã) com risadas, distrações, procurando livros e debatendo o que colocar nos trabalhos, mas, sim, uma reunião via Google Meet preenchida pelo sentimento de saudade da antiga forma de trocar.

No novo contexto, aprendi a me organizar de forma diferente e a me perguntar se eu tinha habilidades e forças para continuar a estudar dessa forma. Após me adaptar, lá estava eu tomando a decisão de viver a faculdade da forma que era oferecida, então entrei para um grupo de pesquisa na faculdade que tinha foco trabalhar o Racismo Religioso. Fiz isso para me desafiar e não deixar desanimar nesse momento de pandemia, pois sou uma pessoa que não gosta de ficar parada, então procurei ocupar meu tempo com os estudos e fiz alguns cursos online de universidades de outros estados oferecidos na pandemia que tinha como tema a educação infantil. Durante esse período, cada vez mais pessoas da minha família iam pegando Covid, pois continuavam trabalhando, mesmo no pico da pandemia, sem a opção de Home Office, porém, felizmente, nenhuma delas faleceu.

Permaneci arranjando forças para continuar e, então, decidi ter mais intimidade com Deus e foi a melhor escolha que fiz na minha vida e não me arrependo, pois ficava muito ansiosa com as dúvidas que circulavam na minha cabeça e, hoje, melhorou muito, graças a Ele. Dessa forma, fui modificando meu modo de ver a universidade, amando-a cada vez mais e fui muito feliz com as conexões que fiz durante esse período remoto, me perguntando se seria possível fazer conexões tão rápidas com pessoas de outros estados estudando presencialmente. 

Lembro que antes da pandemia teve uma reunião com todos os estudantes que iriam se inscrever na PPP de preferência e, por isso, teve uma breve apresentação dos temas que seriam trabalhados. Recordo-me da apresentação da PPP da professora Ana Chrystina Mignot, que no dia não pôde estar presente, mas que enviou ótimos alunos para representá-la. Fiquei encantada pelo momento de troca dessa reunião, então escolhi a PPP que estou atualmente e nunca pensei que biografias fossem me encantar tanto. Eu nunca gostei, mas eu aprendi que a visão do outro contribui para a minha vida e para o campo da História, uma vez que somos seres individuais que vivem em grupo. Pensar que, hoje, a biografia faz parte da minha vida é muito bom.

No decorrer da disciplina fui ampliando meu olhar sobre biografias, recortes de pessoas que já viveram ou que estão vivas, vendo como um autor escreve sobre a outra pessoa, destacando conquistas e erros, aprendendo que esse tipo de registro pode contribuir para a História e mexer com o sujeito, pois a memória tem cheiro, sentimento e emoção.  De início, eu me empolguei pelos trabalhos externos de observação que deveriam ser realizados, assim como a ideia da pesquisa. Porém, fui aprendendo mais ao longo do tempo e tive o imenso prazer de entender o impacto desses registros na academia e no senso comum, pois são lições de vidas que possuem registros da vida sentimental, profissional e cotidiana, de modo que fui gostando cada vez mais de (auto)biografias.

Ao longo do processo, fui despertando mais meu lado “autobiográfico” considerando que eu era uma acadêmica passando por uma pandemia e isso me fez refletir sobre a época em que faziam diários para passar o tempo, registravam o dia e anotavam algo que achassem interessante. No século XXI os jovens trocaram diários por vlogs e posts no Instagram para registrar a rotina na quarentena, já que a maioria deveria trabalhar e estudar de casa mesmo, o que se tornou o novo normal.

Desse modo, os trabalhos também foram sendo adaptados à nova realidade. O primeiro foi uma resenha sobre os impactos da pandemia naquele momento com 5 imagens para ilustrar; o segundo consistiu em uma apresentação sobre uma biografia de sua escolha e minha escolha foi falar sobre Anitta, uma cantora da zona norte da cidade do Rio de Janeiro que hoje é conhecida mundialmente pelas suas músicas. Foi uma experiência muito boa para minha primeira biografia lida na vida. A terceira avaliação foi a que eu mais gostei, pois teve como tema da PPP III o Café Biográfico, evento realizado toda semana, na plataforma do YouTube, e que consistia em um encontro de trocas de experiências com autores de todo o Brasil. A avaliação exigia a elaboração de uma síntese sobre o tema que mais gostou focando na fala de um palestrante. Eu escolhi a mesa “Egodocumentos como fontes para pesquisa (auto) biográfica”. Na fala, o Dr. Elizeu Clementino de Souza alertou para os números de mortos na pandemia, considerando-os não apenas mortos, mas também histórias, biografias, recortes de vidas que se foram sem ao menos sabermos quem eram, o que me deixou muito comovida

Atualmente, me encontro num momento de autoavaliação do meu percurso, de como eu, Anna Carolina da Silva dos Santos, me refiz nesse momento tão delicado. Pergunto-me como irá ser meu retorno na UERJ, pois faz dois anos que não entro na minha realização, no lugar que me fez sentir viva. Nesses dois anos, eu me desfiz e refiz num processo doloroso, mas que teve um significado na minha vida como mulher na sociedade: hoje, tenho meu primeiro trabalho de carteira assinada como professora, estou concluindo o quarto período desde o início da pandemia, tive muitas experiências acadêmicas de modo remoto, dei uma palestra e fiquei muito nervosa, mas foi muito bom sentir aquele frio na barriga.

A disciplina me fez pensar sobre como seria o processo de elaboração do meu TCC e, mesmo que seja um trabalho demorado e desgastante, pois envolve muitas pesquisas e expectativas quanto ao resultado, hoje, entendo que preciso escrever sobre o que realmente gosto e admiro. Ainda estou no processo de amadurecimento do meu tema que, a princípio, é “Educação de crianças em situação de rua no centro do Rio de Janeiro”. Ainda tenho tempo de mudar de ideia, mas, com certeza, irei me aprofundar nos trabalhos de Silvio Almeida e utilizar algumas narrativas do Dr. Elizeu Clementino de Souza, pois suas vivências me despertaram interesse e, quem sabe, conhecê-lo um dia – seria uma alegria enorme.

Encerro meu relato com um “até logo”, pois se trata de um processo que ainda está em desenvolvimento. Esse tempo me fez refletir sobre que tipo de educadora quero ser, que tipo de pesquisadora quero ser no campo da vida e quais desafios ainda vou enfrentar para ser eu nesse mundo cheio de informações, mas entendo que a vida já é uma escola.

Referências:

KOTRE, John. Luvas Brancas:  Como criamos a nós mesmo através da memória. São Paulo: Mandarim, 1997. 

ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. São Paulo: Pólen, 2019.

SOUZAElizeu C. de. (Auto)biografia, histórias de vida e práticas de formação. Salvador: EDUFBA, 2007.

Participação na live do Café Biográfico