Amanda Christina Prasil Alves
Tudo começou em março de 2020, no dia do aniversário da minha mãe. Era uma sexta-feira e eu fazia estágio, na condição de mediadora de um aluno autista do 2º ano do Ensino Fundamental I, em uma Escola Municipal localizada na Penha. Ao chegar do trabalho, às 18 horas, me lembro de verificar o grupo de WhatsApp que tenho com as minhas amigas da Faculdade de Pedagogia e ver a discussão em torno da decisão da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) de antecipar as férias durante as 2 semanas iniciais de distanciamento. Lembro-me de haver divergências entre o grupo a respeito da notícia. Na escola em que trabalhava, também fui informada sobre as férias antecipadas e, num rompante, vi todos os jornais da televisão tratando do mesmo assunto: a Covid-19. Só sabia sentir medo ao me deparar com a terrível notícia de que a Covid-19 já estava presente no Brasil.
A minha rotina, após a notícia, mudou drasticamente. Os encontros quase que diários com as pessoas que via com bastante frequência, como amigos e namorado, foram substituídos por reuniões em plataformas virtuais. Como não houve aula durante aquelas duas semanas, considerei-as como semanas sabáticas, pois não realizei nenhuma atividade que me favorecesse tanto psicologica como academicamente. Após as duas semanas iniciais, decidi me reorganizar: realizei diversos cursos on-line, comecei um curso de inglês em uma plataforma virtual e coloquei horários certos para a realização de cada tarefa. Além de realizar exercícios físicos em casa, fiz questão de estabelecer uma rotina, de modo que, hoje, reconheço o quanto isso foi essencial para a minha saúde mental naquela época.
Aprendi que estudar on-line não é muito o meu “forte”. Acredito que tenho um desempenho melhor ao estudar presencialmente. Porém, dentro daquela situação em que vivíamos, não tive escolha, e eu tive que me esforçar para ter vontade de estudar, principalmente quando as aulas na UERJ voltaram, em setembro daquele ano. Sentia falta das aulas, mas, ao mesmo tempo, não tive aquele comprometimento que costumava ter quando ia às aulas presenciais e isso me deixou bem chateada.
Minha expectativa era muito alta, pois larguei tudo para me dedicar ao estudo do vestibular para entrar na UERJ. Não fiz o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e me dediquei inteiramente ao vestibular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pois me encantei por ela. Não posso expressar em palavras o que senti quando soube da minha aprovação, pois foi algo inexplicável e memorável. Esperava conhecer diversos professores que me incentivassem a me tornar uma profissional cada vez melhor, a estudar e a me dedicar, sem viver no comodismo. Esperava, também, participar de todos os eventos acadêmicos, como mesas de conversa, para estar em contato com diversas discussões que fossem ao encontro daquilo que ansiava para a minha formação. Acredito que estudar pedagogia em uma universidade pública nos faz ainda mais especiais ao adentrar na profissão, pois os professores nos fazem amar e nos engajar com a profissão.
Além de amar estudar na UERJ, eu amava a minha rotina, ainda que ela fosse cansativa. No 1º período, ainda não fazia estágio, então peguei matéria à tarde. Eu amava ficar na faculdade e almoçar com minha amiga enquanto aguardávamos a aula da tarde, além de comer no décimo primeiro andar e conversar, logo após irmos à biblioteca folhear diversos livros. Eu acordava de manhã e pegava um ônibus, muitas vezes ia de carona com meu namorado que também estudava lá. Porém, quando ele não tinha aula no dia, eu enfrentava o ônibus lotado, característico da cidade do Rio de Janeiro. Eu brincava com as minhas amigas dizendo que eu não saía do ônibus quando chegava meu ponto de descida, eu era “cuspida pra fora”, de tanta gente que tinha em um mesmo espaço. Mas sabia que não podia reclamar, pois eu só pegava uma condução, enquanto outras pessoas precisavam pegar mais de uma e, ainda, sair bem mais cedo de casa, então sempre agradeci a Deus pelo privilégio. No 2º período, comecei a estagiar e optei em ter aulas só no primeiro turno. Ia para a faculdade de manhã, voltava para casa, pois estagiava do lado de onde moro, almoçava e ia para o trabalho. Chegando em casa, fazia os trabalhos concernentes à(s) aula(s) do dia. Eu amei os professores que tive, achei interessantes as aulas e como eles utilizavam a inovação do método de ensino para nos ensinar. Lançavam mão de vídeos, sites, filmes, livros e peças de teatro. Tenho muitas boas lembranças dos professores e de suas brilhantes aulas: cada um com seu método, seu jeito, pois não existe um professor igual ao outro naquela universidade. Cada qual tem sua forma de atuar. Além da reflexão de faço sobre as aulas, eu e minhas amigas comentávamos muito sobre todas as disciplinas, pois sempre fazíamos juntas. Somos nove em um grupo só e, mesmo com cada uma tendo suas atividades rotineiras, de estágio e/ou trabalho, tentávamos fazer todas as matérias juntas, uma vez que acreditávamos que isso nos ajudava muito: criávamos grupos de estudos na biblioteca, e, até on-line, para discutir pontos das aulas e estudar antes das provas. Lembro-me que nos intervalos íamos ao 9º andar comer pizza. A UERJ inteira traz uma doce lembrança. Contudo, como se trata de um grupo composto por muitas pessoas, alguns trabalhos em grupo, geraram divergências quanto ao tema, ao título, ao conteúdo etc. Divergíamos em alguns assuntos, mas, de maneira democrática, sempre conseguíamos chegar a um consenso.
Acredito que, desde o primeiro trabalho que nos foi passado pelas professoras Ana Mignot e Nilda Alves, no âmbito da disciplina de Pesquisa e Prática Pedagógica I (PPP I), refletimos sobre diversos assuntos. Lembro-me do primeiro trabalho realizado, ainda no presencial, que consistia em fotografarmos os lugares que passávamos durante o percurso de nossa casa até a UERJ. Logo que começamos o ensino remoto emergencial, tivemos longas conversas instrutivas que muito acrescentaram em minha vida acadêmica. Já na PPP II, tivemos um trabalho interessantíssimo que exigia a leitura de uma biografia e sua respectiva apresentação por meio de slides para a turma. A melhor parte desse trabalho foi poder saber mais sobre importantes personalidades. Na PPP III, acompanhamos os encontros realizados no âmbito do “Café Literário”, bastante enriquecedores no processo de formação. Nesse último período da PPP, pude notar que os encontros giraram em torno do nosso trabalho, de modo que os alunos não só os realizaram, como também levaram questões e dicas dadas pela professora em busca de um maior aproveitamento da PPP dentro do trabalho. No início dessa PPP, on-line, eu estava desempregada. Havia trabalhado no início do ano, mas, com a Covid, não consegui renovar meu contrato na rede pública. Logo no ano seguinte, consegui uma vaga no colégio Elite como professora auxiliar do 5º ano, onde continuo até hoje, só que como professora auxiliar do 4º. Infelizmente, no início de 2020, perdi minha avó e, com o avanço da Covid, não consegui ir ao enterro. Contudo, como o Rodrigo Torres disse em seu texto, ele fez das aulas um consolo para seus dias de angústia, e eu fiz o mesmo. Foram meses difíceis, mas com a volta da faculdade, mesmo na modalidade on-line, foi uma forma de conseguir me reconectar a pessoas tão queridas e que me fortaleceram ao passar por essa fase difícil. As aulas da PPP, inclusive, me ajudaram muito, principalmente no início, durante a qual trocávamos muitas ideias. Lembro-me da professora Ana Mignot contando experiências suas em uma escola durante a época da festa junina. Nunca mais me esqueci dessa história e entendo que são pequenas lembranças que nos tornam quem somos. Portanto, posso afirmar que essa PPP contribuiu e continua reverberando no meu processo de formação enquanto profissional e cidadã.
Pretendo continuar na educação, preferencialmente no Ensino Fundamental I, pois gosto muito de elaborar e aplicar avaliações e de ensinar de uma forma mais abrangente, por meio de diversos métodos que tenho aprendido na faculdade. Acredito que todos os temas referentes à educação me interessem, em especial aqueles que tratem de maneiras de me especializar e de evoluir em relação aos modos de se lecionar em sala de aula, como a aula invertida, por exemplo, que tenho vontade de experimentar em sala.
Acredito que a pandemia veio com o intuito de nos fazer refletir sobre a ideia de que ou a gente para ou a gente avança. Nos estudos, por exemplo, senti certo desânimo, mas é importante não parar, pois o mundo está voltando ao “normal” e temos que nos readaptar à nova rotina. Considero importante, ainda, avançar, sem deixar de estudar, para que eu possa continuar meu processo de formação como boa profissional. Por fim, gostaria de deixar meu singelo agradecimento à professora Ana Mignot, que esteve comigo e com a turma esses 4 períodos e que tanto nos ensinou. Ana me impactou bastante como pessoa e profissional. Obrigada!
Participação na live do Café Biográfico
