Experiências e Desafios: formação durante a crise sanitária

Maiara Catarina de Lima Geronimo

A pandemia de Covid-19 pode ser descrita como um momento crítico para a humanidade, visto que presenciamos cenários, antes, inimagináveis. Quando os telejornais anunciaram a chegada do novo coronavírus ao Brasil, em março de 2020, foi assustador, principalmente, quando as normas de higienização e o isolamento social foram implementados exigindo uma mudança brusca em nosso cotidiano. Os sentimentos de tristeza e apreensão se tornaram presentes ao ver as ruas vazias, lojas e mercados fechados e os altos números de vítimas dessa doença, até então, sem um tratamento específico.

Assim como os milhões de brasileiros, também experimentei o difícil momento de perder um familiar para a Covid-19, meu primo que veio a óbito pouco tempo depois de dar entrada no hospital. Infelizmente, meu primo pertencia ao grupo de pessoas que negava a existência da doença, acreditando ser desnecessário todo o esforço realizado para evitar as aglomerações, bem como o uso constante de máscara e álcool em gel.

A falta de conhecimento em relação ao risco acentuado da doença tem forte ligação, também, com a circulação de notícias falsas, conhecidas como Fake News, que são repassadas através dos grupos de aplicativo de conversas e/ou publicadas nas redes sociais. A circulação dessas notícias, que costumavam abordar temas contrários às recomendações dos órgãos competentes à área da saúde, fez com que muitas pessoas ficassem desatentas aos cuidados necessários para proteção e se mostrassem favoráveis a discursos de negação e, por esse motivo, perdemos um familiar para a Covid-19.

Além desses crescentes casos de Covid-19 no Brasil, diversos setores também foram impactados, dentre eles, a educação. Estudar durante esse período severo foi uma experiência desafiadora, pois foi necessário se adaptar a um novo momento. Como graduanda de pedagogia, minha maior dificuldade foi, certamente, me adaptar ao ensino remoto, que passou a vigorar nas escolas e universidades do país, requerendo uma maior organização individual para assistir e realizar as atividades acadêmicas.

A necessidade de recursos digitais para a continuação da rotina acadêmica trouxe grandes desafios para alguns estudantes, especialmente pela dependência de aparelhos como computadores e celulares que pudessem, ao menos, garantir o pleno acompanhamento das aulas síncronas. A universidade disponibilizou, dentre inúmeros recursos, tablets e chips para auxiliarem nesse desafio enfrentado pelos alunos.

Precisei, portanto, ampliar meus conhecimentos acerca dos recursos digitais utilizados pelas disciplinas para que pudesse acompanhar todo o conteúdo e interagir, mesmo que de maneira virtual, com os colegas de turma. Nesse sentido, é preciso destacar que, mesmo em meio a inúmeras dificuldades encontradas para a realização das atividades acadêmicas, que se tornaram remotas, posso dizer que houve a contribuição positiva no que diz respeito ao conhecimento de aplicativos e de novas plataformas digitais fundamentais para a comunicação entre professores e alunos, tendo em consideração a presença da tecnologia na nossa sociedade. Mas, apesar desse conhecimento mais amplo de recursos digitais, confesso que nós, estudantes, tivemos impactos significativos no campo acadêmico, como na rotina, na organização e na falta de trocas presenciais. 

Ao me recordar do dia em que soube que estava na lista de classificados do vestibular da UERJ, para o ingresso em 2019, lembro-me que estava em casa com a minha família. Confesso que não acreditei, mas foi uma verdadeira festa, minha família gritava e pulava de felicidade e digo que até parecia que foram eles os aprovados. No dia em que compareci para realizar minha matrícula, só pensava no primeiro dia de aula, em conhecer os docentes, assim como em estabelecer novas amizades. Após efetivar a matrícula, me deparei, a caminho da saída, com um lindo pátio onde tinha, no gramado, a palavra UERJ; fiquei deslumbrada e logo pedi para que tirassem fotos minhas para guardar de recordação. Minha alegria era tanta que chamou a atenção de algumas pessoas que estavam em volta que ficaram admirados com tamanho entusiasmo. Foi um dia inesquecível!

Ao iniciar as aulas, no primeiro semestre de 2019, minha rotina era acordar às 5 horas da manhã, realizar a higiene pessoal, me alimentar e embarcar no ônibus que passava às 5:50h, mas com um sorriso no rosto por estar realizando um sonho de criança: tornar-me professora. Estar na universidade me fez ampliar os conhecimentos, ter a oportunidade de participar como ouvinte de eventos indispensáveis para a nossa formação como professor, bem como estabelecer trocas e formar grandes amizades. Mas, com a chegada do novo Coronavírus ao Brasil, todas essas experiências passaram por significativas mudanças. Agora, todo o contato com a sala de aula era feito, exclusivamente, pelos aplicativos de chat e os corredores da UERJ se tornaram silenciosos, refletindo o triste momento que passamos a vivenciar.

Apesar disso, ainda durante ao severo período da pandemia, tive a grande oportunidade de ingressar como bolsista, em setembro de 2021, no grupo de pesquisa da professora Ana Chrystina Mignot, de maneira remota também. A participação no grupo tem me proporcionado inúmeros aprendizados oriundos das pesquisas feitas pelos alunos de mestrado e doutorado do grupo. Meus conhecimentos são ampliados a cada reunião, tendo em vista os temas abordados e as fontes utilizadas, que me auxiliam acerca da importância das pesquisas para que possamos dar visibilidade a personagens de grande relevância em relação a suas atuações nos espaços ocupados. É inegável o impacto da pandemia de Covid-19 na rotina de estudos dos graduandos em pedagogia, haja vista a necessidade de adaptação às normas estabelecidas, além do isolamento social, que afetou bruscamente o cotidiano da universidade, onde as trocas entre as pessoas são comuns e necessárias.

Ao relembrar o dia em que assisti às apresentações acerca dos temas que seriam trabalhados em cada PPP – disciplina de Pesquisa e Prática Pedagógica –, lembro-me que fiquei entusiasmada com a temática sobre biografias abordadas por essa disciplina de PPP do departamento de Estudos Aplicados. Devido ao pouco conhecimento que tinha sobre o assunto, tive as melhores expectativas possíveis ao visar a ampliação de meus conhecimentos sobre o tema. Mas, como tivemos a necessidade imediata de um isolamento social, de modo que precisamos nos adaptar ao ensino remoto, confesso que tive medo de não conseguir aprender e participar efetivamente da disciplina.

No entanto, as aulas sempre foram distintas e dinâmicas, oferecendo a nós, estudantes, o conforto e a tranquilidade para o processo de aprendizagem. Um dos trabalhos acerca das biografias, realizado de forma remota, foi um momento enriquecedor, visto que trouxe a discussão em relação a questões como: O que é uma biografia? Quais os motivos para escrever uma biografia? Quem é o biografado? dentre outros questionamentos.

Com a escolha da biografia de Steve Jobs, a qual apresentei para a turma, tive a oportunidade de mergulhar em um universo que pouco conhecia e, com a leitura da obra, pude descobrir o papel desenvolvido por esse intelectual no âmbito profissional, bem como conhecer suas redes de sociabilidade e sua relação familiar.  Tive a grande oportunidade de ter contato com a trajetória de outras personalidades nacionais e internacionais abordadas pelos meus colegas de turma, contribuindo, portanto, para a ampliação de nossa formação acadêmica em relação à escrita desse gênero textual. Nesse sentido, todo o trabalho desenvolvido no decorrer dos semestres pela disciplina de PPP me proporcionou um olhar mais cuidadoso para a escrita, respeitando e refletindo, também, sobre quem escreve.

O Café Biográfico, evento remoto desenvolvido pela disciplina, o qual tive a experiência de participar como assistente, nos apresentou a necessidade de reflexão e de debate em relação à memória, à escrita de si e à prática docente. Talvez, a oportunidade de reunir professores e pesquisadores de diferentes lugares, tanto nacionais quanto internacionais, em tão pouco tempo, não seria possível de forma presencial. 

Dentre os inúmeros aprendizados que o evento me proporcionou, posso destacar a relevância dos documentos encontrados em acervos, museus e bibliotecas, assim como os questionamentos acerca da invisibilidade de sujeitos comuns, principalmente, quando associamos ao gênero. Com as brilhantes apresentações, pude, ainda, observar os diferentes caminhos percorridos pelos pesquisadores em busca do seu objeto de pesquisa, permeados por enfrentamentos e grandes desafios devido à invisibilidade de muitos intelectuais na historiografia.

A mesa que tratou da invisibilidade da mulher contou com a presença de pesquisadores de grande relevância, mas ao ouvir a apresentação da professora Daiane Tavares (UERJ), participante do grupo de pesquisa da Professora Doutora Ana Mignot, da qual também faço parte como bolsista, me chamou a atenção para o poder da escrita na vida do sujeito comum. Ao falar de sua pesquisa sobre detentas de um presídio de segurança máxima que eram escritoras de um jornal do presídio chamado Só Isso!, me fez refletir sobre como a escrita tornou-se uma forma de liberdade e exposição das subjetividades, inquietações e alegrias dessas mulheres (in)visibilizadas socialmente, pondo em xeque, ainda, seu lugar de fala na sociedade.

Apesar de todas as aulas terem sido realizadas remotamente, essa disciplina, por meio de todas as atividades, de eventos desenvolvidos e, até mesmo, da elaboração da presente autobiografia, foi enriquecedora, acredito que não só para a minha formação acadêmica, mas também para a de todos nós, integrantes da disciplina, que futuramente poderemos exercer a função de educadores. Desse modo, todo o aprendizado advindo da PPP nos ajuda a refletir, com base em tudo que já foi trabalhado, a pensar em temas para serem desenvolvidos em futuras pesquisas, onde assumiremos o papel de pesquisadores também.

Nesse contexto, o trabalho de conclusão de curso, o qual iniciaremos em breve, pode ser descrito como uma tarefa que requer muita dedicação dos estudantes, visto que representa toda a trajetória que realizamos na universidade, trazendo, através da nossa escrita, todo o aprendizado e a experiência que obtivemos ao longo da graduação. Como bolsista do grupo de pesquisa da professora Ana Mignot, pretendo direcionar meu trabalho de conclusão de curso à Laura Jacobina Lacombe, atual objeto de estudo. A pesquisa atravessa os períodos de 1920 a 1933, marcados pelas viagens da intelectual, as quais ajudaram, por meio das propostas da Escola Nova, a expandir o discurso educacional católico. Nesse ponto, acredito que a disciplina de PPP foi fundamental ao apresentar temas como a construção da memória e a importância da escrita de si, como realizado nesse semestre com a elaboração de nossa (auto)biografia, indispensáveis para o meu percurso de pesquisa. A pesquisa tem por objetivo investigar as viagens que ocorreram no período em destaque, visando as práticas escolanovistas e católicas apropriadas e difundidas por Lacombe, bem como interpretar a visibilidade de sua participação no diálogo com educadores brasileiros e estrangeiros.

Para tanto, será necessário mergulhar em acervos que apresentem a participação ativa de Laura na Associação Brasileira de Educação (ABE) e na Associação de Professores Católicos do Distrito Federal (APC). Além disso, será necessário realizar a localização e o levantamento das viagens de Laura durante o período na Hemeroteca Digital da Fundação Biblioteca Nacional, dentre outros materiais a serem pesquisados. Desse modo, será possível compreender os métodos pedagógicos propagados e as relações estabelecidas nos espaços que circulou.

A partir do Café Biográfico do dia 17 de novembro, com a mesa intitulada de “Vestígios (auto)biográficos de educadores viajantes”, compreendi que as instituições de guarda são relevantes para o processo de mapeamento de informações, visto que é a partir delas que será possível encontrar documentos que comprovem a presença da educadora em espaços internacionais, além de demonstrar sua atuação nesses espaços de debate. É claro que algumas dificuldades serão encontradas no percurso, uma vez que, ao estudar um personagem viajante, as fontes são diversas, se fazendo necessário um cruzamento de informações muito atento e cuidadoso, respeitando a trajetória do sujeito pesquisado.  Acredito, portanto, que esse futuro trabalho em relação a uma figura feminina que teve grande representação no espaço internacional nos ajudará a refletir sobre a necessidade de iluminar essas mulheres viajantes, importantes nos debates em prol da educação, os quais visavam a relevância de novos métodos que permitissem ao aluno ser considerado um sujeito ativo que apresenta experiências de vida.

Desse modo, todo o percurso que estamos realizando na UERJ é enriquecedor, pois temos experiências que vêm das trocas com o outro, dos aprendizados advindos das disciplinas e de eventos dos quais tivemos a oportunidade de participar.  Apesar do período de desafios enfrentados, durante o qual foi necessário se adaptar a um “novo normal” concernente aos estudos e à vida em sociedade, acredito que nos tornaremos profissionais que atuem de maneira significativa nos espaços onde ocuparmos, devido ao trajeto na universidade e seu impacto em nossa vida pessoal. Neste final de semestre, ao nos despedirmos da disciplina mediada pela professora Ana Mignot, sinto muita gratidão a todos os trabalhos realizados, que visavam, sempre, ajudar a ampliar nossos conhecimentos, nos permitindo participar de todos os projetos pensados. Foi inesquecível e só posso dizer “muito obrigada”.

Participação na live do Café Biográfico