Entre rotinas e mudanças de uma graduação durante a pandemia

Luiza de Lima de Oliveira

A pandemia do coronavírus impactou muitas vidas e rotinas, consequentemente a minha, pois estava no começo das aulas do terceiro período e iria iniciar meu estágio na prefeitura. No dia em que ocorreu a primeira contaminação no Brasil, vi no noticiário que uma pessoa tinha contraído o vírus da covid-19 em março de 2020, depois do carnaval. Na época, fiquei com bastante receio de contaminar a mim e a meus familiares, porque era uma doença incerta e causava grande preocupação no mundo.

As minhas rotinas mudaram, foram colocadas restrições para não sair de casa. Com essa nova mudança no meu dia a dia tive que me adaptar. A situação de ficar em casa, não ir para a faculdade e não visitar meus amigos me deixou apreensiva, por não poder fazer coisas que estava acostumada a realizar. Me vi em um cenário de repleta insegurança enquanto tentava entender se esse período iria passar e se poderia voltar ao que era antes. Com o passar das semanas, vi que as coisas estavam tornando rumos diferentes e me tornei uma pessoa sem muita organização nos meus estudos. O ensino remoto não me favoreceu. A internet não é das melhores aqui onde moro, por ser bairro periférico e ter ausência de uma rede de qualidade. Sobretudo o fato de estudar dentro de casa tornou-se complicado por estarem todos os integrantes da família tentando compreender esse novo modo de enfrentar o cenário caótico. E não havendo uma preparação para o novo método de ensino por conta do fato da pandemia, tentei me organizar com os conteúdos da faculdade, mas acabei não conseguindo adequar ao remoto por não atingir as exigências dessa modalidade de ensino. Optei por pegar poucas disciplinas para não ficar totalmente parada nesse tempo em que estava dentro da minha residência. Meu pai teve que trabalhar durante a pandemia, ele é carteiro, e isso exigiu que continuasse a seguir presencialmente no serviço. Enquanto havia pessoas que ficaram em casa trabalhando, ele precisou se expor na rua para receber seu salário. Benefícios foram cortados e os carteiros não foram cotados para serem vacinados nas primeiras doses da campanha aos públicos de trabalhos essenciais.

 Além disso, sofremos questões emocionais nesse período. Inúmeras pessoas estavam morrendo com o vírus e o negacionismo da doença tornava complexa a diminuição da contaminação tanto no Brasil, quanto no mundo. Havia indivíduos que não utilizam equipamentos para conter a covid por pura ignorância e por ideologia, o que acabou agravando bastante as mortes e a disseminação da doença. Graças a Deus nenhum parente meu morreu, mas fiquei preocupada com a possibilidade de alguma coisa acontecer, vivi com aflição os acontecimentos na sociedade.

Por isso, fiquei sem cabeça para me concentrar nos trabalhos ou nas provas. Precisei fazer uns exercícios físicos e procurar algo para descontrair a mente, me aperfeiçoei nos desenhos – que foi uma coisa que aprendi a fazer durante a pandemia – e estou realmente gostando de desenhar, fazendo yoga para ajudar na minha concentração. Por causa da ansiedade, comecei a fazer terapia a fim de me conhecer melhor e melhorar minhas angústias e preocupações e esse processo só está fazendo bem pra mim.

Manter meus estudos nessa fase caótica foi mais complicado do que eu imaginava, uma vez que tive que conciliar meus afazeres do lar, o ensino e buscar formas de lazer. E isso foi bem difícil porque não estava conseguindo fazer as coisas que estavam sendo propostas, a procrastinação era algo extremamente real. Tentei colocar as coisas em dia, mas minha mente sempre voltava às questões da pandemia. Fiquei completamente à mercê dessa situação.  Cheguei a achar que em pouco tempo tudo ia ficar bem, mas fui vendo que pouca gente se importava em estar de máscara, usar álcool em gel e evitar aglomerações. Na comunidade onde vivo, observei que tinham pessoas fazendo esses atos negligentes e festas, sem nenhum receio de contaminação. Não compreendia essas ações feitas por pessoas omissas em prol do próprio entretenimento e que colocava vidas em risco.

Antes da pandemia, minhas práticas habituais eram outras: acordar cedo para ir a faculdade, pegar ônibus lotado, almoçar no “bandejão” da faculdade, conversar com minhas amigas e estar em contato com novas pessoas. Estava à procura de estágio, a fim de ter experiência na área em que quero atuar que é na educação infantil, até que consegui a vaga da prefeitura. No dia em que fui à coordenadoria da quarta crê para dar entrada nas papeladas e iniciar a função de auxiliar uma criança com necessidade especial em uma escola pública, houve o primeiro contágio da variante do coronavírus. Ter que lidar com expectativas de algo não concretizado é frustrante, porque pensamos de que maneira seria essa nova vivência e de que modo iria ser, como eu iria me articular com a criança? Como iria enfrentar as questões relacionadas ao aluno? Será que iria me sair bem nessa função? São perguntas que não serão respondidas agora, mas para um futuro próximo, quem sabe.

Quando passei para universidade pública me surpreendi, pois achava que a faculdade era algo distante da minha realidade. Me baseando pela prova do Enem, nunca obtive uma nota positiva para passar em algum curso e sempre ficava muito nervosa no dia da prova. Na minha opinião, a prova do Enem é mais um teste de resistência e técnicas do que uma prova humanizada. Ficar cinco horas sentada, lendo textos enormes, me deixava apreensiva e ansiosa. Nunca fui muito bem nesse exame, então comecei a pensar na possibilidade de fazer a prova da UERJ mesmo com medo da discursiva. Eu tinha uma descrença na minha cabeça de não ser capaz entrar na universidade, tendo como base os exames do Enem que fiz anteriormente. Pois fiz a prova e tive a classificação de primeira, nem acreditei em mim mesma e nem na minha capacidade. Senti que as provas da UERJ são muito mais tranquilas e acessíveis aos estudantes.

O pré-vestibular que fiz me auxiliou nessa conquista, já que os professores de lá constantemente passavam seus saberes e experiências para os alunos. Foi um curso gratuito para os moradores da região que resido, o Complexo da Maré.  A instituição Redes da Maré é um divisor de águas a quem deseja romper o ciclo vicioso do indivíduo de baixa renda que tem que terminar o ensino médio e entrar direto para o mercado trabalho. Ajudar a família é mais importante do que obter conhecimento com os estudos, muitos não conseguem dar continuidade à vida acadêmica por conta da necessidade de trabalhar em serviços informais.

Portas se abriram para um horizonte no qual nem dimensão tinha, com diversas oportunidades e discussões em que pude me inserir.  Acredito que as minhas incertezas e dificuldades tenham me colocado em um lugar de não pertencimento, cabendo a mim mesma situar de que estudar é uma forma de resistência e de fazer valer meu direito a um espaço do qual eu nem sequer tinha dimensão.

Desenvolvi senso crítico na faculdade, uma coisa que não tive no período escolar e precisei criar meios de autonomia para adquirir conhecimentos diversificados e me posicionar acerca das vivências da sociedade como indivíduo pensante. O meio acadêmico tem textos bastante complexos, tenho dificuldade de interpretá-los. Acredito que seja por ter frequentado uma escola próxima da comunidade onde moro que não tinha recursos para incentivar os alunos aos estudos.

Creio que ainda tenho que melhorar a forma que aprendo para conquistar mais conhecimento com a universidade, uma vez que fico muito receosa em períodos de avaliação e ao falar em público, mas isso é fundamental na carreira do magistério. Ser professora pressupõe carregar consigo o dom da comunicação aos seus alunos, entendo que dessa forma cabe a mim procurar meios de intervir nesse meu modo de ser. Nas apresentações de seminários sempre fiquei bastante nervosa, gostava mais de participar das aulas de libras porque não precisava “falar” para mostrar que sabia me comunicar. Não esqueci o que aprendi nas aulas de Libras e faz tempo que tive essa disciplina.

A faculdade me possibilitou contato com diversos conhecimentos. Quando entrei, foi uma grande alegria por estar em uma universidade. Meu pai sempre quis que os filhos fizessem curso superior, constantemente falava que é preciso estudar para ter uma renda melhor e ele incentiva muito os filhos. No momento que entrei na faculdade, comecei a traçar minha carreira profissional. Acreditava que ia ser uma jornada com muitos conhecimentos, vivências de vários tipos e um horizonte de tentativas. Mas veio a pandemia e me distanciou pouco dos meus objetivos e o novo formato de aprender a estudar me deixou sem muita perspectiva. Mas tenho esperança de que esse cenário mudará com a volta da modalidade de ensino presencial e novas oportunidades e experiências estarão por vir.

A disciplina Pesquisas e Práticas Pedagógicas e Estudos Aplicados me despertou interesse em estudar uma temática para construção da monografia, no entanto, devido a covid-19, não tivemos aulas presenciais. Adaptamos e utilizamos plataformas virtuais para dar continuidade ao trabalho. Infelizmente, perdemos a aula de campo, a interação com a turma e trabalhos em grupos, coisas que teríamos se não tivesse o coronavírus. Mesmo assim, resolvi fazer essa disciplina, precisava prosseguir com a faculdade.

O PPP foi adaptado devido às mudanças no cenário pandêmico em que estamos vivendo. Trabalhos on-line foram feitos: cafés biográficos, seminário e textos. Ter a experiência de ler e sintetizar livros biográficos foi curioso porque nunca tinha feito o movimento e é legal ter experiências diferentes para estudos. Não havia lido nenhum livro com conteúdo biográfico, a maioria das vezes em que vi algo de biografia era em formato de filmes ou documentários. A experiência de ler um livro biográfico é diferente por ter mais histórias que não são contadas nas adaptações áudios visuais. No trabalho proposto sobre a biografia que escolhi, contei a história de vida de Marina Silva, uma mulher do cenário político, onde majoritariamente homens atuam nesse campo. Com sua luta e persistência, alcançou seus objetivos e conseguiu lutar em prol do meio ambiente na política. Sua história é comovente, gostei muito de ler o livro e conhecer sua vida.

O Café Biográfico que aconteceu no semestre anterior, também de forma online, e foi muito agregador e significativo. Professores de outros estados e fora do país trouxeram seus estudos acerca do ramo educacional e transmitiram seus conhecimentos nas lives. Achei bom porque era uma oportunidade que dificilmente aconteceria se estivéssemos com aulas presenciais. Participei de quase todos os Cafés Biográficos, aprendi sem sair de casa. Por um lado, foi interessante, uma vez que os estudantes puderam conhecer esse modo de ensino, tendo informação em plataforma virtual disponibilizadas no YouTube.

Não consegui participar na leitura das lives, atividade proposta pela professora da disciplina PPP, por estar muita atarefada com coisas pessoais. Além disso, estava sem disposição para me atentar às obrigações da matéria por estar com sentimento de incertezas e inseguranças pelas coisas que aconteciam. Elaborei um texto para avaliação do semestre com base nas discussões propostas pelo café Biográfico do dia 10/11/2021. Nesse dia, falou-se sobre biografia, religião e educação, com participações de professoras de diferentes estados dialogando em torno das mulheres religiosas e de educadoras do ambiente educacional. Uma das participantes é bolsista da professora Ana Chrystina Mignot, a professora Priscila Garcez, que também já deu aula no PPP apresentando seu objeto de estudo.

Essa disciplina possibilitou um aprofundamento maior na área da educação. Achei bem diferente a questão de fazer escritas de si com teor autobiográfico para este trabalho final, pois permitiu que aprendêssemos a contar nossas vivências e compreender estruturas autobiográficas e ao mesmo tempo conhecer os tipos de escrita para analisar e estudar.

O texto proposto pela professora da disciplina PPP que mais gostei foi Luvas Brancas, de John Kotre, que mostra como nossa memória autobiográfica pode ser distorcida em nossas lembranças. Dessa forma, a gente pode lembrar dos momentos que vivemos e eles não serem exatamente aquilo que imaginamos, tendo distorções de algumas coisas.

A lembrança que nós temos está nos detalhes mais marcantes que vivemos. Me lembro que quando voltamos para o período 2020.1, tivemos uma semana de aula e a outra já foi suspensa por conta do coronavírus. Pensei que durariam 15 ou 30 dias no máximo. Mas infelizmente foram dois anos em que estivemos regrados do convívio social. Hoje estamos começando a interagir com outras pessoas, e é até estranho falar com o outro com a máscara tendo em mente que durante anos nunca precisamos usar proteção em nossos rostos para evitar contaminarmos uns aos outros.

O que aconteceu em 2020 será marcado em nossas memórias pelo resto da nossa vida. No futuro iremos nos lembrar da máscara, das vacinas que tomamos, do distanciamento social que tivemos que fazer e das lives que assistimos, até porque foi algo muito marcante e isso será objeto de estudo.

Para concluir o trabalho final de PPP precisamos mencionar o que pretendemos estudar na graduação e o que mais nos chamou atenção durante o curso. Bom, pessoalmente sempre gostei muito de interagir com crianças e de estar perto dos pequenos para contar histórias e brincar com eles. Na faculdade tive aula teórica falando sobre infância e desenvolvimento da criança, gostei muito desses conhecimentos sobre educação infantil. Ainda não tive contato com a prática em sala de aula com as crianças, mas pretendo estudar acerca da importância do brincar na infância, na medida em que no brincar a criança se desenvolve e estimula sua cognição. Nas disciplinas “Infância e Política de Educação Infantil” e “Psicologia do Desenvolvimento Humano e Educação” tive contato com diversos autores que discutem o brincar na infância e como isso é importante para criança.

Me interessei em saber mais a respeito desse tema. Esse conceito de infância foi se modulando com o passar do tempo e autores como Philippe Ariès, Maria Montessori, Jean Piaget, Vygotsky e Freud impulsionaram estudos ao redor do imaginário infantil, buscando compreender o desenvolvimento das crianças e como auxiliar o desenvolvimento de seus intelectos na educação. Um dos educadores que articula sobre o brincar na infância é o Lev Vygotsky, psicólogo que realizou estudos nas áreas do desenvolvimento da aprendizagem e criou corrente de pensamento ligado ao Sócio construtivismo. Gosto da teoria dele que acredita que o desenvolvimento intelectual da criança se dá pela interação social que elas vivenciam, logo as vivências e experiências vão impactar no desenvolvimento intelectual das crianças. Além da linguagem, que pode ser uma ferramenta que a criança vai utilizar para se relacionar com o outro.

Outra educadora que pode auxiliar nos meus estudos é Maria Montessori, médica na Itália, que estudou métodos que colocam o aluno como objeto central do processo de ensino e aprendizagem e desenvolveu métodos que valorizam o interesse do aluno. Ela vai compreender a criança como sujeito que deve ser olhado pela sua própria perspectiva. Além disso, pretendo buscar mais pesquisadores que articulem com a temática que quero entender melhor, procurando eletivas e projetos que me impulsione ao redor do assunto, pois assim abriria mais horizontes e descobertas. 

O estudo dessa temática pode contribuir para uma aprendizagem mais volta a interação dos alunos, através de brincadeiras e o convívio social da criança no ambiente escolar. Dessa forma, pretendo estudar em torno das interações do brincar na escola, fazendo observações com as crianças do ensino infantil para analisar as brincadeiras apresentadas por elas e como elas se relacionam com o outro.  

O PPP me ajudou muito a entender melhor o cenário educacional e a observar as práticas educativas, agradeço a professora Ana Chrystina e aos bolsistas dela que disponibilizaram aulas muito boas à turma. Também gostei de ter feito os trabalhos da disciplina por entender que aprendi muito através desses exercícios. Aliás, não posso esquecer de agradecer imensamente a UERJ por ter disponibilizado políticas estudantis para auxiliarem os estudantes na pandemia. Os auxílios para os cotistas e não cotistas deram uma segurança maior aos que vivenciavam um futuro incerto. Por conta disso, os alunos puderam se organizar e darem continuidade nas suas graduações sem preocupação com os gastos que a própria faculdade exige com materiais didáticos, xerox etc. Acredito que sem esses recursos muitos alunos estariam passando por apertos para estudar e foi algo essencial para a permanência dos estudantes que estavam em situação de vulnerabilidade financeira.