Ana Luíza Dantas da Silva
No final do ano de 2019, surgia, na China, um vírus desconhecido e que, com imensa rapidez, se espalharia pelo país. Não demorou muito para que se alastrasse pela Europa e para que chegasse ao Brasil. No início do ano de 2020, a Europa já via sua população adoecer e chegar a óbito em decorrência do novo Coronavírus. Aqui no Brasil não havia casos ainda, então as pessoas se aglomeraram. Lembro de estar indo para a UERJ, numa sexta-feira, por volta das seis da manhã, no metrô, quando, ao entrar no vagão, vi pela primeira vez vi um moço jovem usando máscara. Senti um frio na barriga, mas pensei até que fosse impossível que o vírus atingisse o Brasil como nos outros países. Ao chegar no décimo segundo andar da UERJ, reencontrei uma amiga que veio me abraçar, enquanto outra, preocupada com a possibilidade de a Covid-19 já estar entre nós, pediu que evitasse o contato físico. A partir desse momento surgiu, em mim, uma série de questionamentos e possibilidades.
Enquanto eu e umas colegas assistíamos a uma palestra, começava o burburinho de que a universidade ficaria sem as atividades por quinze dias por conta de possíveis casos de Covid. Ao chegar em casa, vi a notícia de que a cidade pararia. Neste mesmo dia, meu pai se preparava para viajar para a cidade de Três Rios. Planejava passar uma semana junto aos seus irmãos e quando saiu a notícia ele já se encontrava no ônibus. Entretanto, o que era para ser apenas sete dias, tornou-se muitos meses de distância e, como resultado, ficamos sem nos ver por longos três meses, tendo contato apenas por meio de ligações. Diante do medo e da angústia, em um curto período, me vi sem a presença do meu pai, sem os meus estudos – tinha o plano de começar a estagiar e não pude realizar – e todos tiveram que ficar em casa, sem trabalhar e tendo que lidar com esse novo caos.
Ficamos meses sem aula e foi apenas em setembro que foi proposto o ensino remoto emergencial. Por certo, ele permitiu que não perdêssemos “tempo”, trazendo à tona a possibilidade de mesmo distantes darmos continuidade ao curso. Entretanto, as dificuldades logo se mostraram presentes. No início, meu problema foi estudar, com apenas um celular, em uma casa cheia de gente, a qual não me permitia momentos de calmaria. Além disso, lidar com a nova perspectiva de ensino me causou espanto, pois me sentia insuficiente, sentia que não estava aprendendo e pensava a todo o momento que não seria uma boa profissional – pensamentos desse tipo me perseguiam. Por isso, aos poucos, fui aprendendo a estudar de maneira remota. É certo que ainda possuo muita dificuldade: às vezes não dou conta de estar sempre em dia com a faculdade e de lidar com as tarefas de casa, mas com esforço vi que é, sim, possível se reinventar.
Estudar em meio a uma pandemia, às vezes, era um refúgio da realidade triste que vivíamos. Ler textos e focar nas atividades distraíam a minha mente de tantos problemas que eu enfrentava. Lembro que vi o desespero de perto, vi pessoas próximas a mim serem internadas, muitas pessoas falecerem, e o que mais me marcou foi o sentimento de impotência em meio a tudo o que ocorria. Via o vírus se espalhando cada vez mais rápido e, na mesma medida, via pessoas negando a sua existência ao não respeitar as normas.
Para reorganizar minha vida nesse período, mudei a minha rotina da forma que pude para amenizar os sentimentos negativos que ele trazia diariamente. Passei a fazer atividade física, me alimentar melhor, separar umas horas do meu dia pra estudar. No que tange à minha vida acadêmica, buscava a todo momento deixar o pessimismo de lado e focar na faculdade, nas disciplinas e nos conteúdos. Embora estivéssemos bem distantes fisicamente, creio que o ambiente on-line foi capaz de proporcionar uma aproximação entre todos e todas. Criei mais empatia e percebi que havia muitos estudantes em situações similares à minha, logo vi que não estava sozinha.
Antes da pandemia, mais precisamente quando ainda fazia o vestibular da UERJ, eu não me via atuando na área da pedagogia. Recordo-me de, por muito tempo, ouvir que eu tinha tudo para ser professora, que eu levava jeito e que as crianças gostavam de mim. Todavia, eu não aceitava essas falas, achava até ruim quando alguém comentava. Entrei para uma pedagogia bem desanimada, não era uma das minhas primeiras opções, uma vez que a minha idealização era cursar psicologia. O primeiro período foi até bem difícil, pois não conseguia me encontrar. Contudo, a partir do segundo período, passei a me sentir mais próxima do curso, dos ideais e da educação, em si. Hoje, não me imagino fazendo outra coisa que não esteja relacionada à educação. Então, dali em diante, eu comecei a traçar planos. Planejava, no período seguinte, procurar um emprego na área, ainda que como estagiária, pois queria ter contato com as crianças e aprender, na prática, o que era ensinado no curso, já que ainda não tinha tido nenhuma experiência com o meu campo de estudo.
Antes da pandemia, eu acordava às cinco da manhã para chegar a tempo na UERJ e assistir às aulas que se iniciavam às sete horas. Os trabalhos em grupo, os debates e as conversas eram realizados na biblioteca ou em algum banquinho do décimo segundo andar. A interação com os professores era direta, o que proporcionava uma troca mais rápida de informações. Decerto, esse contato direto com os professores e com os colegas era algo que me motivava bastante quando batiam o desânimo e as dúvidas.
Com o início da pandemia e com o ensino remoto emergencial, eu me vi, de novo, um pouco perdida. Isto porque, com esse modelo de ensino, por mais que fosse bem planejado pela universidade e pelos professores, fiquei confusa e perdi parte da motivação que eu encontrava diariamente quando ainda era presencial. Por certo, essa questão foi facultada devido à “solidão”. O distanciamento, tão caro ao ensino remoto, formato no qual cada um estuda em sua casa por meio de uma tela de celular e/ou computador, me causou bastante estranhando em um primeiro momento.
Estudar em casa foi complicado. Além do fato de que meu acesso se dava através de um celular, enfrentei muitas complicações nessa forma de ensino, uma vez que a minha casa dificilmente ficava vazia: moro com cinco pessoas e dois cachorrinhos. Nesse sentido, minha capacidade de concentração ficou bem prejudicada, fora que, além de estudar, muitas vezes precisava dar conta das tarefas domésticas e ajudar meu pai, já que ele tem uma certa debilitação devido à visão dele. Então, a todo momento, eu me via tendo que interromper e me desconcentrar. Nós, que estudamos pedagogia, sabemos que temos que ler, com frequência, diversos textos para as disciplinas. Contudo, no ensino remoto, penso que a quantidade de conteúdo triplicou, o que também foi um problema no início.
Com o decorrer das aulas no período de pandemia, aos poucos, o meu relacionamento com a pedagogia foi se ajustando. Fui aprendendo a separar o meu tempo melhor, a estudar em casa, mesmo diante de outras obrigações e a mexer na plataforma, já que sempre fui péssima em tecnologia e em seus dispositivos. Fora isso, pude perceber como estudar a distância, por exemplo, por mais que não seja a mesma coisa, requer muita disciplina e responsabilidade. Passei a admirar os estudantes que não estudam presencialmente.
Estudar de maneira remota, naquele período, foi a saída que tivemos e fico feliz que, do meu jeito, eu fui conseguindo me adaptar e viver essa nova experiência. Não vejo a hora, contudo, de poder voltar ao presencial e de estar mais próxima das pessoas e dos professores. Pensando em toda a minha trajetória até aqui, mesmo com as adversidades enfrentadas no decorrer do caminho, ter sido aprovada no vestibular da UERJ significou superação, porque fui a primeira da minha família a entrar em uma universidade pública e a única a realmente focar nos estudos. Foi uma superação, também, porque no período do vestibular eu pensei, muitas vezes, em desistir e deixar pra lá essa história de cursar faculdade, já que a minha realidade me fazia acreditar que colocar os estudos como terceira opção e procurar um trabalho seria melhor. Entretanto, com incentivo eu permaneci e não desisti do meu sonho.
Quando foi proposto escrever sobre o que essa PPP significou para mim, voltei do início, quando da inscrição para a disciplina. Cai nela “de paraquedas”, pois me inscrevi por influência de uma colega, já que o nome “Pesquisa e Prática Pedagógica: Viagens, biografias, práticas e políticas para a infância” chamou sua atenção e ela me convidou para fazermos juntas. Ao iniciar essa disciplina não tinha uma expectativa certa sobre ela, apenas me inscrevi – não sabia nem como seriam abordados os temas dados no seu título. Por isso, posso afirmar que me surpreendi positivamente e, se pudesse voltar atrás, faria a mesma escolha. Nesse sentido, gostaria de apontar duas atividades que contribuíram bastante com a minha formação.
Inicialmente, destaco o Café Biográfico. Os encontros promovidos pelo evento ocorreram às quartas de manhã e, ao todo, foram feitas onze lives, as quais contaram com professores e alunos, que fizeram falas e leituras muito enriquecedoras e de temas diversificados. Merece destaque o fato de que esses professores e alunos não estavam concentrados apenas na UERJ, ou seja, pudemos ter acesso a pesquisadores de outras universidades, o que engrandecia, ainda mais, os debates realizados nas mesas. Lembro-me do trabalho final que fiz acerca da mesa “Vidas de educadoras (in)visibilizadas”, que ocorreu no dia 20/10/2021. Participaram da live as professoras Ana Chrystina Mignot (UERJ), como mediadora, Maria Helena Menna Barreto Abrahão (UFPel), Leila Blanco (UERJ) e Camilla Estevão Gomes (UERJ). Escolhi esse tema para fazer a resenha, porque me chamou atenção o fato de aquelas mulheres serem invisibilizadas, ainda que com tantos feitos. Ademais, lembro de ter recebido bastante ajuda das alunas da professora, no que tange à leitura e às minhas dúvidas acerca de como seriam realizadas as mesas.
Também trago como recordação a atividade na qual teríamos que escolher uma biografia para realizar a leitura e, a partir dela, preparar uma apresentação para a turma. Foi a primeira vez que montei um slide sozinha pelo celular. A biografia que eu escolhi foi a da cantora Elis Regina, cujo título era “Elis: uma biografia musical”, de Arthur de Faria. Nunca tinha tido interesse por biografias, a não ser que tivesse relação com algum desejo que eu tivesse. Assim, ao pensar em escolher uma biografia pensei em uma que abrangesse um tema que me facultasse interesse. Por essa razão, escolhi a de Elis, pois possuo bastante interesse na área da música.
Embora a biografia de Arthur de Faria se baseasse na área do desenvolvimento musical de Elis, foi impossível não conectar a vida dessa grande artista, conhecida como “pimentinha”, com o contexto social em que ela vivia. Recordo-me que enquanto lia a biografia da maior cantora desse país, meu pai não cansava de rasgar elogios para ela e me contava como ela era deslumbrante e como marcava os palcos através de seus gestos e de sua poderosa voz. Amei conhecer Elis Regina através das lentes de um músico.
Além do que já foi exposto acerca da PPP, pude ter contato com o ato de pesquisar e pude enxergar a sua movimentação de uma forma diferente, principalmente no que concerne a pesquisas biográficas, como as que trabalhamos nessa disciplina. Ao lembrar de um dos textos apresentados em aula, intitulado “Luvas brancas”, pude, enfim, compreender como a memória não é algo certeiro e fiel. Vi que, na verdade, ela é fluida e capaz de ser modificada através do tempo e das influências que ocorrem sobre ela. O texto também me mostrou como a questão da memória pode ser relativa, de modo que as pessoas podem falar do mesmo assunto de maneira diferente, segundo as suas intenções e percepções. Esse era um fato que eu nunca tinha me atentado, principalmente por perceber as situações por meio de uma visão dualista: ou é certo ou é errado, ou é isto ou é aquilo.
Com isso, através de todas as aulas, do Café Biográfico, das apresentações, dos textos lidos, a PPP contribuiu demais para a minha formação enquanto estudante de pedagogia e ser humano. Fico maravilhada ao parar e pensar em quantas coisas eu pude aprender, como, por exemplo, a questão da memória, das vidas dos diversos personagens que foram apresentados, fora os debates que ocorreram nas mesas do Café, cujas questões trabalhadas foram preciosas e agregadoras. Defendo que a disciplina de Práticas e Pesquisas Pedagógicas, certamente, nos incitou a pensar, criar e raciocinar de uma nova maneira os conhecimentos debatidos e que já achávamos que conhecíamos.
Ao relembrar, mais uma vez, a minha trajetória como estudante de pedagogia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e relacionar com o que pretendo trabalhar e desenvolver no meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), consigo me recordar da primeira vez que tive contato com a Educação Inclusiva e como fui criando simpatia pelo assunto. A princípio, meu primeiro contato com o tema sobre pessoas com necessidades educacionais especiais foi no meu primeiro período, através da disciplina “Educação inclusiva e Língua Brasileira de Sinais”. Posso afirmar que eu era bem ignorante acerca da questão, principalmente porque, até então, nunca tinha parado para pensar como ocorria a educação dessa parcela da população que era tão excluída. Com isso, aprendi mais sobre a cultura surda, a diferença entre deficiente auditivo, surdo e surdo/mudo. Depois, no terceiro período, pude participar da disciplina “Questões atuais em educação especial”, que tratou bastante das adversidades que são enfrentadas por aqueles que possuem algum tipo de deficiência ou necessidade educacional especial. Por último, no semestre passado, tive a disciplina “Educação inclusiva e cotidiano escolar”.
Além dessas disciplinas, um outro episódio que me marcou e me fez relembrar das minhas vivências e dos conhecimentos adquiridos nessas disciplinas, foi a entrada de uma garotinha chamada Maria Flor na creche em que atualmente eu trabalho, que possui a síndrome de Cri Du Chat, conhecida como “síndrome do gato”, uma anomalia genética bem rara. Assim que ingressou na creche, muitos cuidados tiveram que ser tomados, como na alimentação, por ela se engasgar com bastante facilidade, e no auxílio nas atividades, já que ela possuía atraso psiconeuromotor, dentre outros aspectos. Durante a sua adaptação, ela se apegou muito a mim. Com isso, todos na creche ficavam admirados em como eu conseguia lidar tão bem com aquela garotinha, mesmo diante das adversidades enfrentadas.
Certo dia, a diretora aconselhou que eu me especializasse na área de educação especial e, ao ouvir aquilo, eu senti que tinha encontrado a direção. A minha bagagem até ali, com as disciplinas e a minha experiência com a Maria Flor, me fez questionar, no geral, quantas crianças estão fora da escola, sem socializar com outros sujeitos e tendo seu direito de receber educação não respeitado, perpetuando, assim, a falta de representatividade de pessoas que fogem do padrão de normalidade.
Nesse sentido, vejo o tema da “Educação inclusiva: os desafios da educação para todos” como um tema fundamental a ser tratado e, cada vez mais, discutido no meio acadêmico e social, pois muitas pessoas são excluídas por terem determinadas condições e dificuldades específicas, o que torna difícil não só a permanência delas no meio educacional, como também a sua chegada até ele.
No que tange à PPP e à sua contribuição para a minha prática de pesquisa, consigo visualizar um campo a ser explorado, ao pensar em quais fontes eu irei usar, o que eu quero transmitir com o meu trabalho etc. Além de usar fontes e dados já existentes para entender melhor a questão da exclusão que ocorre no meio educacional, pretendo entrevistar professores que possuam alunos com necessidades educacionais especiais em turmas comuns, para que, assim, eu possa compreender, através da memória de cada um deles, como a educação ali se desenvolve, como ele trabalha com a diversidade em sala de aula, como a maioria dos alunos lidam com essa temática e como eles fazem para tornar agradável a convivência de todos, em conjunto.
Por fim, a PPP ressignificou a forma como eu penso e como eu pesquiso determinado tema. Aqui, eu aprendi que nossas pesquisas têm fundamentos e que nada vem do acaso. Todos os temas são dignos de serem discutidos e de serem lidos, sem se esquecer do leitor em potencial. O que me motiva é conseguir expressar a importância de se promover uma educação que não exclua nenhuma criança, seja por questões sociais, culturais, econômicas ou religiosas. Em contrapartida, ao pensar na minha formação nesse cenário pandêmico, posso dizer que foi de reconstrução, pois nele reconstruí sonhos e perspectivas, as quais, durante a pandemia, foram se minimizando. Contudo, penso que ganharam forças através das aulas, debates, do contato com os nossos colegas, ainda que virtual e distante, ao conseguir enxergar que eu não estava sozinha nessa realidade tão difícil. Assim como eu, meus colegas, e até mesmo professores, passaram por muitas adversidades, mas conseguimos, dia após dia, dar mais um passo em direção ao futuro.
Participação na live do Café Biográfico
