Do medo à esperança: um relato sobre a vida e seus atravessamentos

Beatriz Moura Cezar

Parte I

Em dezembro de 2019, eu ligava a televisão no Jornal Nacional e via centenas de corpos sendo enterrados, por dia, na China e, logo, em seguida na Itália. Meu lado racional sabia que era uma questão de tempo até que aquele vírus se espalhasse ao redor do mundo. Meu lado esperançoso, quase utópico, torcia para que tudo não passasse de um pesadelo. Fui para a Sapucaí, encontrei amigos de vários lugares do Brasil, cantei e sorri: estava feliz. Aquele feriado, contudo, foi uma das últimas lembranças de felicidade, pois, logo em seguida, instaurou-se, no planeta, um período de muitas incertezas e perdas.

Havia acabado de arrumar um novo emprego quando recebi a notícia de que tudo ia fechar por 15 dias. Depois vieram mais 15 dias. Dias que viraram meses. Meses que se transformaram em anos. O mundo parou! Comércios com as portas abaixadas, escolas silenciosas, universidades desertas. As máscaras, que no começo da crise sanitária ainda eram feitas de pano, tornaram-se parte do nosso cotidiano. O medo do fim do mundo nunca foi tão palpável quanto naquele momento. Viver passou a ser a única coisa que realmente importava. 

Passei ilesa, mas, infelizmente, o Coronavírus me deixou marcas. No intervalo de um mês, perdi duas pessoas importantes. A conta só não foi maior porque meu tio, felizmente, sobreviveu, quase que milagrosamente, aos três meses que passou internado lutando contra essa doença e a todo dano que ela causou.

Resistir e reaprender. Duas palavras que me guiaram no caminho até aqui, até a escrita desse texto e ao final dessa disciplina tão importante. Resistir era a única opção. Quanto a reaprender, foi o que fiz em todos os âmbitos da minha vida e, com a UERJ, não foi diferente. A troca do ensino presencial pelo ensino remoto não foi simples no começo. Sentia falta das pessoas, sentia falta até do calor humano do Ramal Santa Cruz às 7 horas da manhã. Mas, na vida, tudo é questão de costume e eu consegui adequar minha rotina ao ensino remoto. Descobri em mim a qualidade de nunca esquecer um prazo, ao mesmo tempo em que revisitei as ansiedades que só quem tem a cabeça pensante 24 horas por dia consegue entender.

Fiz uma quantidade grande de matérias on-line porque, apesar de tudo, consegui aguentar as demandas. O AVA, Ambiente Virtual de Aprendizagem, virou o site mais acessado do meu computador e do meu celular. Durante esse período, também entrei em uma bolsa de pesquisa sobre infâncias com a professora Ligia Aquino e me tornei coordenadora voluntária de um pré-vestibular popular. Foram esses encontros e debates que me mantiveram sã durante o caos.

Estudar e viver durante uma pandemia foi um desafio que, talvez, mais para a frente, eu entenda a dimensão. Há dois dias, uma rede social me lembrou de uma publicação que eu mesma fiz no auge das mortes aqui no Brasil e ela dizia assim: 

Tá difícil dormir, viu? O corpo tá cansado, a mente tá cansada, mas o sono não chega! Dá medo, uma sensação de querer proteger todo mundo, um nó imenso na garganta. Me sinto vivendo em um grande pesadelo, presa dentro de eterno obituário com três mil mortos por dia. Tenho aula daqui a meia hora e eu só consigo me perguntar: Como? Como sigo a vida fingindo que essa é só mais uma quarta feira normal? Há mais de um ano, nenhuma quarta feira tem sido normal.

Foram mais de 660 mil mortes no Brasil e me dói saber que muitas delas poderiam ter sido evitadas com a compra das vacinas. Nessa conta, estão João e Rafael. Hoje, escrevo esse relato e sigo forte por mim e por eles.

Parte II

Meu relacionamento com a UERJ não foi um amor à primeira vista, longe disso! Aos 17 anos, entrei na UFRJ para cursar Serviço Social e era feliz pelos lados da Praia Vermelha. Mas, teimosa que sou, queria tentar as áreas da comunicação. Passei de jornalismo para publicidade e me vi sem saber que rumo tomar quando percebi que não me via trabalhando naquilo. Foi quando a Pedagogia e a UERJ surgiram no meu caminho, um amor construído ao longo do tempo. Quando revisito minhas memórias, vejo que não faria nada diferente. A emoção de ver meu nome naquela lista de aprovação é ainda mais especial hoje do que era antes. Ao pisar nos corredores cinzas do décimo segundo andar, tive certeza de que não seria mais uma expectativa frustrada. E eu estava certa! Tudo o que aconteceu comigo durante esses anos foi bem maior e melhor do que eu poderia imaginar. A educação me escolheu e eu a escolho todos os dias. 

Minha rotina antes do Coronavírus era acordar bem cedo, quase de madrugada, pegar o trem e descer na estação Maracanã. Tomava café na UERJ e comia pão de queijo quase todos os dias! Minha memória afetiva, às vezes, me faz recordar do cheiro e do quanto estar ali era como estar em casa. Gostava de conversar com meus amigos de turma, de assistir aula, de anotar as coisas na minha agenda. Com a pandemia, tudo isso mudou radicalmente em questão de dias. 

Como disse anteoriamente, perdi pessoas próximas nesse período e a dor, querendo ou não, é transformadora. Ainda mais quando as coisas ocorrem da formam que foram. Um deles foi embora por negar a doença e outro porque não teve acesso à vacina a tempo. Negacionismo, mentiras e descaso. Tive raiva, confesso. Enquanto eu e minha família vivíamos trancados em casa, cercados de medo e incertezas quanto ao futuro, alguns saíam como se nada estivesse acontecendo, sem o mínimo de preocupação com a saúde alheia.

Poderia ter escolhido me fechar, mas não foi o que fiz. Tomando o caminho inverso, me tornei ainda mais aberta, mais falante e cheia de projetos. Aproximei-me virtualmente de várias pessoas incríveis, virei bolsista de Iniciação Científica em um grupo voltado para o estudo das infâncias, me tornei voluntária e coordenadora pedagógica de um pré-vestibular popular organizado por um coletivo que faz um trabalho necessário e admirável. Li e aprendi muito sobre os mais diversos assuntos, principalmente educação. Cada conversa e cada debate me atravessou de uma maneira única em um momento de reconstrução. Foi nesse período que decidi dar aulas em casa e que ganhei um prêmio na SEMIC Virtual com um trabalho sobre maternidade, puerpério e universidade – meu objeto de pesquisa e tema do meu TCC, mas que falarei melhor mais à frente, na quarta parte do texto. Recentemente, consegui voltar às salas de aula por conta dos estágios e tem sido uma experiência fantástica e de reafirmação do quanto tenho caminhado na direção correta, profissionalmente falando. 

Como vocês puderam perceber através do que escrevi até aqui, escolhi encarar uma rotina de estudos, trabalhos e projetos. Não me arrependo de nada porque sei que faria tudo novamente se me visse naquela mesma situação. A rápida transformação do mundo como eu conhecia me fez amadurecer uns cinco anos em dois. 

Agora, redigindo esse relato, vejo o quanto a pandemia me tirou e me trouxe muitas coisas. Deu-me medo e coragem na mesma proporção. Descobri que tinha mais força do que imaginava e que era fraca exatamente nos lugares que achava ser forte. As marcas se refletem, hoje, em algo doloroso como a síndrome do pânico e as crises de ansiedade, mas entendo que é passageiro e tratável e que não apagam, de forma alguma, tudo aquilo que sou e que conquistei.

Parte III

Poderia começar dizendo que estava convicta da minha escolha quando me inscrevi nessa PPP, mas estaria mentindo e isso é algo que não farei aqui. Dentre as poucas opções no turno da manhã, pelo título, essa era a que me parecia ser menos pior. Estava atrasada e não poderia correr o risco de ficar sem vaga naquele momento. Então, sendo sincera, não tinha grandes expectativas para a disciplina. É um alívio escrever o último trabalho com a sensação de que não poderia ter acertado mais na minha decisão, mesmo que ela tenha sido tomada por impulso. 

No primeiro período, me questionei diversas vezes por que estávamos estudando sobre diários e cadernos escolares. Na minha cabeça, aquela teoria toda não serviria de nada na prática. Eram só cadernos! Quem guarda cadernos? Por que guardam cadernos? Até que um documentário mudou tudo! Era “Menino 23”, que conta a história de um professor que, ao saber ouvir a história contada por um aluno, descobriu, em São Paulo, uma fazenda construída de tijolos marcados com suásticas nazistas. Durante o estudo, Sidney Aguilar descobriu que, nos anos 30, cinquenta meninos negros foram levados de um orfanato para a fazenda onde os tijolos foram encontrados. A família proprietária da fazenda era a dos Bento Ribeiro, nome de um bairro famoso do município do Rio de Janeiro. Quando aquele documentário terminou, eu entendi que, sem registros, não há memória e, sem memória, tudo se perde. 

No segundo período, eu finalmente tinha entendido a importância de documentar. Foi quando tivemos como tarefa escolher um personagem, ler sua biografia e fazer uma apresentação, em slide, para a turma. Não pensei duas vezes: Elza Soares. Elza era a representação de muita coisa que me cerca. Nascida no mesmo bairro que eu, tinha uma voz potente em todos os sentidos. Bradava que a carne mais barata do mercado era a carne negra quando poucos tinham coragem de fazer. Quando olhava pra Elza, via nas suas falas minhas tias, vizinhas e amigas. Na época da leitura e da apresentação, ela ainda estava entre nós. Infelizmente, a mulher do fim do mundo nos deixou no início deste ano, mas cumpriu sua promessa de cantar até o final. O livro de Elza, escrito por Zeca Camargo, foi a primeira biografia que li. Justo eu, que sempre fui uma leitora voraz, nunca tinha tido interesse em mergulhar nas memórias de personagens tão marcantes. Depois de Elza e das apresentações dos colegas de turma, do entusiasmo de cada um deles ao contar sobre a obra escolhida, outras biografias passaram a ocupar a minha estante e a fazer parte das minhas leituras. 

O terceiro período foi marcado pelo maravilhoso projeto chamado Café Biográfico. Foram onze mesas síncronas, todas às quartas de manhã. Eu costumava comentar no chat que deveríamos mudar o nome para Banquete Biográfico tamanho conhecimento que obtínhamos ouvindo os convidados.

Ao falar de Café Biográfico, não posso deixar de citar dois pontos que considero muito importantes para que esse projeto tenha dado tão certo. Em primeiro lugar, o empenho das bolsistas da Professora Ana Chrystina Mignot que, durante esse período, nos deram aula em algumas oportunidades. Foi incrível poder conhecer acervos tão vastos como a Hemeroteca Digital, um mundo completamente novo e fascinante para mim. A paciência e zelo de cada uma delas também é algo a ser louvado. Lembro-me bem que Evelline e eu gravamos cerca de cinco vezes a leitura do texto que abriria uma das mesas do Café Biográfico até que ficasse bom. No final, valeu a pena ter refeito tantas vezes, pois, quando vi meu rosto e nome estampados no YouTube, era como se eu, mesmo que de forma tão pequena, fizesse parte daquela imensidão de informações. Falando em imensidão, o outro ponto que torna o Café Biográfico inesquecível é a quantidade de pessoas que ele conseguiu atingir. Da UERJ para a Universidade de Honduras, as trocas e as conversas realizadas foram enriquecedoras e ultrapassaram fronteiras.

De todas as mesas, a minha preferida aconteceu no dia 29/09/2021, cujo título era “Escrita da vida, educação e história: olhares paras as fontes”. Foi mediada pela prof. Amália Dias e teve como convidados Ednardo Montti, Luciana Borges Patroclo e Shayenne Schneider Silva. Essa escolha se deu pelo tema, afinal, quando se trata de biografias, a minha curiosidade é sempre de saber como a pesquisa foi feita e de descobrir os meios usados para de chegar até o final.

Agora, no último período, depois de dois anos de ensino remoto e alguns percalços pelo caminho, escrevo meu último trabalho. Aquela disciplina, que eu não esperava nada, me entregou bem mais do que eu ousaria imaginar! Entregou conhecimento e bagagem para a minha formação, não só acadêmica, mas também pessoal. Hoje, entendo a importância de cada diário e caderno escolar. Vejo documentários e biografias com os olhos brilhando de satisfação. Aprendi que Luvas Brancas podem ser muito mais que um título de texto; elas guardam memórias e ancestralidade. Mesmo que tudo isso não seja exatamente meu objeto de pesquisa para a monografia, todos pavimentaram o caminho que vou percorrer daqui para a frente. Aos envolvidos no planejamento da PPP: sou eternamente grata! Muito obrigada por tanto em um período tão conturbado.

Parte IV

Escolher um tema de monografia é algo complicado. Para mim, pelo menos, não foi uma escolha simples. Queria falar de samba, de arte, de história da infância. A cada nova aula e a cada novo teórico, o ponto de interrogação na minha cabeça aumentava mais. Foi quando uma grande amiga minha engravidou e eu pude acompanhar de perto sua gestação, descobrindo seus medos, suas dúvidas e suas angústias. Minha curiosidade foi além: depois do parto, o que acontece com essa mãe e essa criança que acabou de chegar ao mundo? Foi quando descobri o termo “puerpério” e toda a infinidade de sentimentos nele contido. Estava, ali, meu objeto de pesquisa.

Há dois anos, todas as quartas, me reúno para discutir sobre os mais diversos tipos de infância com a professora Ligia Aquino e seu grupo de pesquisa – alguns encontros contam com a participação da querida professora Lisandra Ogg. Quando defendi que gostaria de aprofundar minha pesquisa em puerpério e como a Universidade do Estado do Rio de Janeiro lida com as mães e seus bebês nessa fase tão complexa, recebi apoio e uma enxurrada de ideias. Minha primeira escrita foi sobre ausência de creches universitárias nos campi da UERJ e como isso afetava, principalmente, a continuidade do curso para as mulheres que eram mães. A segunda, foi um aprofundamento do puerpério e seus impactos na maternidade, nas famílias e nas crianças. Os objetivos do meu estudo para área da educação são, primeiramente, dar visibilidade para uma fase importante da primeira infância. O contato entre mãe e filho, quando bruscamente interrompido ao término das licenças, pode causar danos. Outro ponto que pretendo atingir com a minha monografia é a necessidade de uma creche universitária na UERJ, como já existe em outras instituições. Sei que programas importantes, como o Auxílio Creche, foram criados recentemente, mas, ao fazer pesquisas, ouvi de mães e pais que eles se sentiriam mais tranquilos e renunciariam ao auxílio para ter seus filhos por perto. Além disso, uma creche universitária seria um local de pesquisa e estágio para diversos cursos, principalmente para a Pedagogia.

Quantos aos autores, penso em deixar que essa monografia seja escrita pelas grandes autoras que me fizeram chegar até o puerpério devido aos seus muito relatos na internet: as mães. Pretendo pautar meu trabalho em entrevistas com mães que também são universitárias e que lutam, diariamente, para dar conta de desempenhar essas duas tarefas tão complexas e que exigem tanto. Por ter escolhido esse tipo de metodologia de estudo, indo mais pro campo do que para os livros, que escrevo que essa PPP pavimentou o caminho que vou percorrer a partir de agora.

Foi através do que aprendi, aqui, durante os dois anos da disciplina, que sei o quanto a escuta e os registros são fundamentais para contar sobre vivências. Inclusive, foi por conta de relatos, nesse diário on-line chamado internet, que cheguei ao meu tema. Vou desempenhar, agora, o meu papel mais complicado: o de ouvinte. Quando penso na minha monografia, penso nas biografias que lemos. Sei que não vou escrever uma biografa, mas quero levar para o meu trabalho a mesma escrita atenta que encontrei naquelas páginas.

Quero passar a vivência das mães universitárias e de seus bebês durante o puerpério através daquilo que elas me contarem, das fotos tiradas, das lutas travadas e dos coletivos formados. Não estarei mais escrevendo sobre mim, como faço agora, mas sobre o outro. Quanto a isso, tudo o que foi construído nessa disciplina me dá a certeza de que eu não poderia ter escolhido fonte melhor para a minha pesquisa.

Espero que a minha monografia traga luz para um período que ainda é desconhecido e pouco debatido na academia. O objetivo é ajudar mães e crianças, junto com suas redes de apoio e de família, a passarem por essa fase do puerpério com mais tranquilidade, sem precisar de rupturas e evasão. A UERJ reconheceu a importância do debate quando me premiou na SEMIC Virtual quando tratei de puerpério e universidade, então, a esperança é que a minha pesquisa siga o mesmo caminho, assim como as minhas produções de mestrado e doutorado que pretendo fazer, pois sei que estarei bem orientada pela professora Ligia Aquino e a partir de tudo que aprendi com a professora Ana Chrystina Mignot.

Participação na live do Café Biográfico