Rachel Nunes dos Reis
No ano de 2020, todo o planeta Terra foi atingido por um vírus extremamente contagioso e fatal. Todos ficaram em estágio de atenção, até que a pandemia foi declarada pelos profissionais de saúde e pelos órgãos públicos. Cenas de filmes apocalípticos eram repetidas dia após dia, mas, dessa vez, na realidade.
Quando surgiu o vírus desconhecido ninguém esperava que fosse tão grandioso. A epidemia começou na China, um país de grande influência, recebe, diariamente, uma alta taxa de estrangeiros, além de ser o país mais populoso do mundo, abrigando um pouco mais de 18% da população mundial. Logo após, um surto se iniciou na Itália, levando a óbito mais de 100 mil cidadãos italianos. Enquanto tudo isso ocorria, no Brasil, estávamos em um período de festas, uma data em que o índice de turismo no país alavanca, juntamente com as grandes festas de rua: estávamos em pleno Carnaval.
Com o pensamento de que nada chegaria ao Brasil, o país continuou vivendo normalmente. Nenhuma medida foi tomada, nenhuma fronteira foi fechada. As mídias de comunicação alertavam e divulgavam, diariamente, informações sobre o vírus e sobre a doença que ela desencadeava, a Covid-19.
Durante todo o início, eu trabalhei no aeroporto internacional do Rio de Janeiro. Vi, diariamente, estrangeiros desesperados para voltarem ao seu país de origem, alguns usando máscaras e eu, como brasileira, estranhava esse comportamento. Ninguém imaginava que apenas semanas depois seria decretado o uso obrigatório de máscaras pela cidade e pelo mundo.
Eu iniciava o terceiro período de pedagogia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e a turma chegou a ter a primeira semana de aula presencial. No entanto, logo após, os casos de infecção pelo vírus aumentaram drasticamente, o que desencadeou em centenas de mortes em território brasileiro. Com essa situação, a notícia da paralisação da educação por conta da Covid-19 chegou. Todos acreditavam que duraria algumas semanas, no máximo um mês, mas durou muito mais. Com o tempo ocioso vieram a angústia e o desespero pela falta de noção de quando tudo isso iria acabar. Passei meses sem trabalhar, estudar e, até mesmo, sem sair à rua.
Após perder um semestre inteiro, em agosto de 2020, muitas instituições de educação decidiram retomar as aulas em um modelo totalmente remoto, mas, com elas, surgiram diversos problemas de acessibilidade tecnológica. Felizmente, a UERJ, na busca por se reinventar cada vez mais, para evitar a evasão acadêmica, deu o total suporte para os estudantes que necessitavam de auxílio, fornecendo chips de internet e tablets para que todo o corpo estudantil tivesse a oportunidade de participar das aulas. Infelizmente, essa não foi a realidade de diversos outros estudantes de diferentes universidades.
O início do ensino remoto foi um grande obstáculo para mim, pois possuo uma imensa dificuldade de concentração. Dentro de casa, olhando para uma tela, tudo tirava a minha atenção. Tive que diminuir as disciplinas cursadas para que pudesse ter um melhor desempenho nas poucas em que eu me inscrevia. Tudo era muito difícil de entender apenas por textos, ainda mais em um curso em que, muitas vezes, há a necessidade do convívio para compreender diversos aspectos dos conteúdos.
Com o passar do tempo, as plataformas e as práticas pedagógicas começaram a se adaptar ao ensino remoto. Os professores se aperfeiçoaram ao modelo e isso trouxe um feedback positivo de todos os alunos, inclusive de mim. Porém, mesmo com toda a mudança, é visível a diferença de desempenho que tenho no ensino remoto, quando comparado ao presencial.
Assim como os professores, precisei de muita adaptação e otimização do meu tempo para estudar em casa. Isso, porque não se tratava mais de apenas revisar a matéria. Dessa vez, precisava assistir a todas as aulas em meu lar, aguentando familiares atrapalhando os estudos com sons externos e diminuindo o meu esforço apenas por ser on-line, o que me fez sair da zona de conforto em que sempre estive.
Atualmente, com o ensino híbrido, já acostumada com algumas questões, estou conseguindo lidar melhor com toda a programação das disciplinas. Mesmo sabendo que o meu nível de aprendizado cai e as minhas dificuldades de compreensão dos conteúdos crescem por causa do ensino a distância, passei a me esforçar para buscar grandes experiências e aprendizados que agregassem ao futuro da minha carreira profissional. Além disso, passei a ver de uma maneira positiva, pois facilita a conciliação com trabalhos e estágios, que, por conta da pandemia, gerou um aglomerado de atividades pendentes na universidade.
Em 2019, um ano antes do início da pandemia, houve diversas mudanças, tanto em minha vida estudantil quanto na profissional. Havia acabado de ser aprovada na UERJ, me tornando a primeira da família a ingressar em uma universidade – e, ainda, pública. Eu me tornei motivo de orgulho para toda a família, mas, para mim, surgia uma grande preocupação: como eu iria estudar e trabalhar ao mesmo tempo? Naquele período, eu trabalhava no aeroporto internacional do Rio de Janeiro, um lugar não muito próximo do campus da faculdade. Minha rotina passou a ser extremamente cansativa pelos deslocamentos diários e por todo o estresse passado nos transportes públicos.
Meus horários eram estreitos, pois eu costumava sair de casa às 5:40h da manhã, para poder chegar ao campusMaracanã às 7h. Ao meio-dia, me preparava para sair da faculdade e chegar ao trabalho às 15h, onde ficava até às 21:30h. Costumava chegar em casa após às 23h, pois, devido ao horário noturno, não havia tanta circulação de transportes públicos pela cidade. Por isso, estudar e colocar toda a matéria em dia só era possível em ônibus e metrôs, durante a locomoção, pois chegava em meu lar completamente exausta.
O apoio e o suporte da minha família foram de extrema importância nessa mudança repentina. Eles me apoiavam sempre e até deixavam meu jantar pronto para que, quando eu chegasse, pudesse comer e conseguir descansar. Lembravam-me diversas vezes da importância de continuar, o que confesso ter sido bem difícil. Isso, pois chegava à universidade e encontrava diversos professores que, muitas vezes, não entendiam a minha situação e, até mesmo, não aceitavam que eu saísse mais cedo para conseguir almoçar. Mas, de todo modo, isso não chegou a ser um empecilho para os meus estudos. Cursei o ensino médio em um curso de formação de professores, o curso normal, o que me fez admirar e ter interesse em conteúdos e conceitos pedagógicos. Logo, as temáticas das disciplinas da faculdade mantinham minha vontade de aprender e de saber mais sobre.
Antes do ensino remoto, adorava usufruir de tudo o que o campus disponibilizava. Os veteranos, muitas vezes, deixavam, no centro acadêmico, textos de períodos antigos que serviam para estudo, o que facilitava para os que não tivessem dinheiro para as xerox. Os trabalhos em grupo eram mais fáceis quando se tinha a biblioteca para se reunir e discutir as ideias. Pedagogia é um curso que envolve bastante contato humano, o que amplia nossas experiências que servirão de bagagens para a vida profissional dentro de sala de aula. Vejo muita relevância nas dinâmicas aplicadas.
As aulas interativas eram as minhas favoritas. Professores e alunos em uma dinâmica de aprendizado, ajudando uns aos outros. Atividades que, no futuro, irão auxiliar cada um ao lecionar em sala de aula. Cada período que passa é uma nova expectativa criada sobre o conteúdo do curso.
É claro que não posso deixar de citar o calor humano que havia ao estar em uma sala de aula com os meus colegas de turma. Todos os dias, debatíamos diversas questões com os professores e evoluíamos na capacidade de questionamento e argumentação, o que, para mim, é totalmente diferente do que é estar em uma sala on-line, uma vez que nem todos se sentem confortáveis de abrir uma discussão virtualmente, além de outros possuírem problemas de conexão que prejudica na hora da participação.
Toda a curiosidade e a vontade de aprender no curso se alimenta do contato com a instituição. Lembro-me dos dias em que eu ficava no centro acadêmico, deitada com minhas colegas, lendo os textos solicitados. Hoje, vejo que há uma grande diferença entre fazer isso acompanhada e fazer sozinha em casa, pois, desse último modo, vejo como se fosse uma obrigação.
Com o aumento da vacinação e a diminuição dos efeitos graves do vírus, estamos voltando aos poucos ao que era antes, e, com isso, estamos voltando às tão sonhadas aulas presenciais. Confesso que o ensino híbrido me ajudava a conciliar o trabalho com a faculdade, podendo assistir às aulas a qualquer momento. Agora, com o ensino presencial, penso em toda a dificuldade de conciliação entre essas duas atividades da minha vida. Mesmo assim, não me deixo desanimar, pois penso em como será voltar para as aulas dinâmicas disfarçadas de brincadeiras que tanto nos ajudam a evoluir profissionalmente.
Finalmente, cheguei ao terceiro período. A pandemia estava no início e tínhamos acabado de começar o período letivo. Deparei-me com uma disciplina chamada Pesquisa e Prática Pedagógica (PPP), que eu deveria cursar por 2 anos e seria como uma introdução à monografia. A disciplina abrange diversas áreas, e a que mais me chamou atenção foi a de Educação Inclusiva, pois, de cara, é o assunto que mais me interessa no curso. Como dito, eu trabalhava como jovem aprendiz no aeroporto internacional do Rio de Janeiro por contrato. Assim que ele se encerrou, fui efetivada no emprego, porém seria no mesmo horário da disciplina com o tema de meu agrado. Acabei preferindo, então, pegar uma outra, na parte da manhã, sob o título de “PPP – Estudos Aplicados”, com a professora Ana Chrystina Mignot.
Logo após a escolha, chegou a pandemia e a paralisação das aulas. Acabei sendo demitida, ficando com os horários livres, podendo me transferir para a outra classe. Contudo, preferi permanecer na que eu tinha escolhido e estava matriculada, principalmente porque alguns ex-alunos haviam me falado e me explicado sobre a referida PPP de um modo muito animado e com carinho, então achei que seria interessante e curioso estudar a biografia de autores importantes para a pedagogia. Foi uma decisão extremamente difícil, pois não conseguia pensar e me imaginar cursando uma disciplina com o mesmo conteúdo durante dois anos. Estava me sentindo confusa e perdida, ainda mais naquele momento, estando distante de colegas e professores por conta da pandemia.
Assim que as aulas retomaram, no modelo de ensino remoto, tivemos a explicação de como seria a disciplina. Houve grandes dificuldades por ser uma temática bem teórica e por ter tido pouco ou nenhum contato, diferente do presencial. Porém, as gravações das aulas deram a liberdade de assistir quantas vezes quisesse para poder entender, o que me facilitou bastante, pois o emprego que consegui acabou sendo no horário das aulas, o que me impossibilitava de participar em tempo real.
Mesmo não participando de algumas aulas por conta do emprego, consegui apresentar alguns trabalhos para a turma, como foi o caso da biografia. Nesse trabalho, tivemos que escolher uma figura pública, ler e apresentar sua biografia. No início, foi difícil escolher alguma que me chamasse a atenção e me fizesse sentir aquele brilho para poder apresentar. Decidi fazer da Lady Diana, mas uma colega de turma acabou escolhendo primeiro. Como foi livre a escolha das personalidades públicas, decidi escolher um artista que sempre admirei e por quem me sentia extremamente tocada por sua arte: escolhi o falecido astro do rock Kurt Cobain, ex-vocalista da banda Nirvana. Foi muito legal contar sua história para a turma, além de a atividade ter sido importante para entender como funciona uma biografia. Pude entender que escrever uma biografia é muito difícil e que, para tanto, é necessário realizar diversas pesquisas e se ater a fontes confiáveis, próximas e reais.
Um outro projeto da disciplina que adorei participar e que foi deveras importante para o meu aprendizado acadêmico foi o Café Biográfico. Tivemos a presença de diversos pesquisadores e professores de várias regiões do país abordando temas significativos, importantes e atuais para apresentar e debater, como mulheres, vidas e educação. Destaco a discussão realizada acerca de mulheres invisilibizadas.
Ademais, pude fazer uma apresentação durante o Café Biográfico que foi de grande relevância para o meu aprendizado, pois, para apresentar, precisei saber pesquisar, procurar fontes e mexer em acervos, habilidades que, claramente, servirão de experiência para escrever minha monografia.
Com essas atividades, a PPP nos fez aprender com pessoas de diferentes regiões, trazendo certa pluralidade. Fez-me refletir, ainda, sobre instrumentos de pesquisa e como tudo pode ser conservado e usado. Lembro-me de uma aula sobre como nossas anotações, escritas e cadernos podem, no futuro, ser uma ferramenta de pesquisa. Com esse pensamento, comecei a anotar tudo. Penso que os conteúdos da disciplina poderão agregar cada vez mais na minha vida profissional.
O trabalho de conclusão de curso que realizarei em breve refletirá todo o estudo realizado e a minha trajetória de experiências e aprendizados acadêmicos. Contudo, a busca por um tema é difícil, pois penso em tudo o que já li e aprendi durante esse tempo na universidade.
Pondero, porém, que, muitas vezes, o interesse no assunto vem de antes da graduação, uma vez que um dos temas que mais me interesso no curso de pedagogia é o de Educação Inclusiva, apesar de, também, gostar bastante da Educação Infantil. Fico dividida quando penso em que posso me aprofundar e em qual seria a base da minha monografia. Até que pensei em uma solução: por que não tratar da Educação Inclusiva na Educação Infantil? Os temas se interligam e são do meu total interesse.
Na infância, estudei em uma ótima escola de tempo integral, onde se via a Educação Inclusiva, de fato. Estudei, na Educação Infantil e no Ensino Fundamental, com várias crianças com deficiências, entendendo e respeitando seu jeito, sem a professora precisar explicar que as crianças possuem síndromes ou deficiências. Via criança conversando e brincando com criança, como sempre foi, para todos, mas que, geralmente, não ocorre em outras escolas.
Ao exercer o estágio obrigatório em Educação Infantil, pude perceber algumas falas vindas das professoras que acabavam excluindo as crianças com deficiência, como explicar para o restante da turma que tal coleguinha é “especial” e deveriam tomar cuidado com ele. Mas, o que acontecia era crianças tratando esse colega diferente e olhando de uma maneira constrangedora, de modo que ele acabava se sentindo desconfortável, intensificando sua irritabilidade. Da mesma forma, realizei estágio no Ensino Fundamental no período em que estudava no Colégio Estadual Heitor Lira, que possuía o Ensino Normal. Infelizmente, a situação que relatei foi algo que também aconteceu lá, mas, dessa vez, como as crianças eram mais velhas, acabavam tratando o colega como se fosse uma criança com a idade bem abaixo da deles, o que claramente também irritava o aluno.
Por isso, esse tema é tão importante para mim. Ainda não consegui pensar em como vou fazer ou o que vou buscar sobre o assunto, mas a base é essa. Penso em pesquisar os métodos montessorianos na Educação Infantil e o quanto isso agrega na inclusão, pois possuem aspectos voltados para a autonomia da criança e ao respeito à individualidade de cada uma. A escola onde estudei era montessoriana e separava as turmas em agrupamentos, onde se une alunos com diferença de idade de até 3 anos, o que gerava uma boa convivência e certa normalidade em relação à diferença de tempo de atividade e de sua realização. Havia, ainda, na maioria das vezes, grande ajuda entre as crianças, por isso penso em como esse modelo ajuda na inclusão. Para entender o método Montessori, como sua criadora o desenvolveu, a partir de quais estudos ela construiu e o que a levou a buscar isso, eu teria que pesquisar sua biografia e buscar acervos: duas formas de pesquisa que abordamos durante a disciplina de Pesquisa e Prática Pedagógicas – Estudos Aplicados. Penso que o meu estudo seria interessante para pensar em metodologias que facilitasse, tanto para alunos, quanto para professores, a inclusão na Educação Infantil, principalmente na rede pública, que vem sofrendo diariamente com a exaustão, a desqualificação e a escassez de profissionais que atuam com alunos com dificuldades educacionais.
Ter participado da PPP será de extrema importância para o caminhar da escrita do meu trabalho de conclusão de curso. Ter aprendido a pesquisar e a buscar fontes reais e confiáveis em conteúdo irá agregar em todo o meu texto, me fazendo ficar curiosa e interessada a buscar, cada vez mais, sobre o assunto. Além disso, toda a minha trajetória na UERJ será importante para a minha vida profissional, a partir dos aprendizados práticos, das metodologias e das abordagens que conseguirei levar para dentro de sala de aula ao lecionar. Conto, também, com os aprendizados teóricos, com os textos de autores geniais da educação que serão levados para toda a vida. Destaco, enfim, que todas as experiências são significativas para o meu crescimento e evolução pessoal e profissional.
Participação na live do Café Biográfico
