Autorreflexões de uma aluna em formação

Natalia Reis dos Santos

Era início do ano de 2020 e, aqui em casa, desde que me tornei mãe, todo ano começa assim: correria para comprar uniforme, material escolar etc., mas antes disso tem aquela pausa. A famosa pausa que é o Carnaval.

Ah! O Carnaval!

Odeio Carnaval. Para mim, é uma grande oportunidade para descansar. Gosto de fugir da bagunça e sempre que posso escolho um lugarzinho bem silencioso, onde o som de um pandeirinho é a única lembrança de que estou nesse período festivo.

Naquele ano, tinha sido convidada para viajar para a casa de praia da minha prima, que fica em uma ilha em Angra dos Reis chamada Ilha da Gipoia, e, prontamente, aceitei. Porém, desde o dia do convite, as notícias sobre um vírus se espalhando pela China foram ganhando espaço nos jornais daqui e do mundo. Cada vez que ligava a televisão ou o computador, era noticiado o fato de que a disseminação do vírus aumentava, desenhando um panorama macabro de mortes cada vez maiores. Até aquele momento, contudo, ainda não era algo preocupante para nós, brasileiros, mas, certamente, já estávamos em estado de alerta. Assim, o planejamento e a concretização da viagem deram prosseguimento e, na data marcada, partimos para o paraíso.

A casa da ilha é bem grande. Amarelinha, já se avista do barquinho – único meio de chegar até a ilha. Lá não tem internet, TV, celular. Sonífera ilha! Há quem reclame e há quem ame. Agraciamo-nos de inúmeros dias sem informações, novelas ou jornais. O som das ondinhas baixas batendo na areia atravessaram aqueles dias de muita paz. Mal sabia o que estava por vir. Mas, e se eu soubesse, o que teria feito? Às vezes me faço essa pergunta e penso se teria escolhido passar os meses seguintes lá, me ilhando de vez.

Ao retornar, era anunciado que o vírus havia se espalhado pelo mundo e o Brasil participava desse cenário caótico. O país assumiria, então, um papel de enfrentamento ao tomar medidas preventivas. O presidente Jair Bolsonaro, todavia, criticava abertamente o que os outros países adotavam como políticas públicas de saúde e fazia menos de um vírus que matava a cada dia mais pessoas e do qual se sabia muito pouco. O uso de máscaras faciais era ridicularizado por ele, que aparecia em lugares públicos e em encontros com chefes de Estado sem nenhuma proteção. O movimento que o mundo fazia para a produção de uma vacina era não só desacreditado como também dificultado. Tivemos escândalos de corrupção com a produção das vacinas que nos protegeriam da “gripezinha” dita por ele. Logo se instaurou uma pandemia e as desinformações, as fake news e o aumento de casos e mortes foram transformando o cotidiano em um verdadeiro caos.

Um jornal televisivo mostrava a Itália com suas ruas completamente vazias. Comércio fechado, escolas fechadas, transporte público sem funcionar. A população se organizando para comprar comida e remédios e estocar. Eu assistia a tudo aquilo apavorada e com medo de que esse momento também chegasse aqui. A certa altura, me peguei comparando as imagens mostradas na TV com um daqueles filmes apocalípticos nos quais a cidade fica devastada e vazia e só se vê bolas de feno cortando as ruas, só que a sensação era que esse terror não parecia ter fim.

Logo foi anunciado que as aulas na UERJ seriam canceladas. Na sequência, foi instaurado o PAE – Período Acadêmico Emergencial –, que teria início em agosto de 2020. Até lá, consegui tempo para me organizar, já que as aulas do meu filho seriam ministradas remotamente a partir dali.

Esse momento merece maior focalização, pois foi convivendo com o dia a dia escolar do meu filho que pude entender alguns importantes enfrentamentos da vida docente que ainda me aguarda. Na primeira etapa, meu filho demonstrava irritabilidade intensa. Não conseguia ficar muito tempo em frente ao computador e a cada ida ao seu quarto eu o encontrava de um jeito: pernas pro ar, ora de cabeça para baixo na cama, ora segurando o sabre de luz do Star Wars. A verdade é que as aulas eram maçantes, intensas e longas e isso me fez refletir bastante sobre o quanto os corpos docente, discente e escolar, em geral, estavam despreparados para uma situação como essa.

A inserção de novas tecnologias e plataformas de ensino foi um desafio para todos nós. Os professores que já não tinham muito manejo com o computador tiveram que torná-lo seu principal aliado. Já as crianças, que o tinham como um dos principais objetos de prazer e lazer, tiveram que, com muita disciplina,  ressignificá-lo como o único canal de acesso à escola.

Confesso que foi um momento curioso. Eu, como mãe, estudante de Pedagogia e observadora, gostava de perceber esse novo movimento. De um lado, havia as professoras mostrando seus quartos, cômodos e pets para os alunos. De outro, as crianças mostrando seus brinquedos, gatinhos, cachorrinhos e o prato de comida do almoço. Estavam longe da escola, mas, ao mesmo tempo, mais próximos dos professores e dos colegas, pois todos tinham acesso a uma parte mais particular da vida do outro. Assim, essa nova forma de aprender, estudar e ensinar foi ganhando forma e, no meio do ano, já estávamos todos acostumados com esse novo jeito de ensinar.

Lembro-me de uma amiga, professora, me contar que, antes da pandemia, todas as vezes que chegava em casa, sua avó pedia para ouvir as histórias de sala de aula. Era um momento das duas que existia há muito tempo. Sua avó, professora aposentada, agora vivia em sua casa e gostava de ouvir o que acontecia na escola, muitas vezes dando conselhos ou boas risadas.

Com o início das aulas remotas, sua avó passou a se arrumar e a participar daquele momento. Pegava uma cadeirinha e se sentava ao lado dela, mas de um jeito que as crianças não a vissem. Ao menos, era esse o combinado, inicialmente. A vó era ouvinte das aulas e amava. Com o passar tempo, a amiga dizia que aquele intervalinho do banheiro era quando sua avó aparecia na tela e pedia silêncio para a turma. Perguntava se fulano já tinha terminado o trabalho. Ela sabia o nome de todos os alunos. Penso que só sendo assim para essa vozinha viver aquele período turbulento. Esses relatos aqueciam o coração em uma fase de tanta fragilidade psicológica, fosse pelo medo em relação à vida e à saúde das pessoas ou pelo desconhecido futuro que nos aguardava.

No meio do ano, as aulas na UERJ começaram remotamente. Eu já estava envolvida completamente com aquela rotina de dar aulas para meu filho após as aulas dele. Acabei não me matriculando no 4º período. Tentei não me pressionar e aproveitei para cuidar de mim. Comecei a fazer análise, o que deveria ter feito há mais tempo, e isso foi muito importante. No início de 2021, retornei ao curso de Pedagogia. Eu já havia feito, anteriormente, um semestre de PPP com a professora Conceição, que precisou se afastar da UERJ por motivos pessoais. Com ela, tinha iniciado um projeto sobre questões de gênero na educação, mas seu afastamento me levou a escolher uma nova PPP. Optei pela da professora Ana Chrystina Mignot, entrando em uma turma que já tinha um projeto em andamento. Esse foi o período que fiquei mais perdida no curso, pois minha turma sempre foi muito unida. Vínhamos caminhando juntos desde o primeiro período, descobrindo e dividindo experiências.

Lembro que meu ingresso na UERJ foi diferente, pois eu já havia concluído uma graduação em Turismo pela FACHA há mais de 10 anos. Trabalhei por 3 anos com Turismo, mas me decepcionei muito e mudei de profissão. Um amigo me convidou para trabalhar com tradução de patentes e gostei muito, sendo a minha profissão até hoje.

É engraçado pensar nisso agora. Minha especialidade se concentra na tradução de novas tecnologias e, rememorando as traduções que realizei, vejo o quanto foi e vem sendo investido, há anos, em autotestes para detecção de vírus, como SARS e outros. Grande parte desse investimento vem da China. Não me surpreende que o país tenha sido pioneiro na fabricação e comercialização de aparatos no combate ao vírus COVID-19. Isso é ciência, o que nada tem a ver com teorias da conspiração ditas por aí.

Posso afirmar que a tradução de artigos científicos vem me moldando ao longo dos anos, me mantendo alerta, consciente e esperançosa, mas, quando iniciei esse caminho, andava cabisbaixa. Sempre gostei muito de estudar e sentia falta da sala de aula. Minha mãe, que trabalhava como merendeira em uma escola municipal no Rio de Janeiro, soube que tinham vagas a serem preenchidas na UERJ e que um vestibular seria realizado. Rapidamente, me enviou um link para inscrição e acabei me envolvendo. Ela, melhor do que ninguém, sempre soube que eu queria ser professora. Talvez de tanto ter visto eu dar aula para as minhas bonecas – minha brincadeira favorita. Confesso que não esperava passar no vestibular, depois de tanto tempo sem estudar, mas consegui ser aprovada em 8° lugar. Aquela sensação maravilhosa me invadiu! Depois de tantos anos consegui entrar em uma universidade pública. Quanto orgulho!

Como moradora do Recreio dos Bandeirantes, tive que me adaptar a uma nova rotina de horários. Escolhi o período da noite e, várias vezes, levei meu filho para a sala de aula comigo. A turma me acolheu diversas vezes. Tornamo-nos muito amigos e essa amizade saiu dos muros da UERJ. Fazíamos piquenique, íamos a barzinho, shows. Tudo. Contudo, com a entrada do período emergencial, cada um dos meus colegas se organizou de forma diferente. Como dito, eu tinha tirado um semestre sabático, enquanto outros colegas optaram por fazer 10 matérias por período. E, assim, a turma foi dissolvendo.

Quando retornei ao curso, a nova PPP e as novas turmas trouxeram de volta aquela mesma sensação de novidade. Confesso que não estar mais na UERJ, fisicamente, me deixava triste, pois era o único momento que tinha só para mim. Meu trabalho como tradutora era home-office, as aulas do meu filho continuavam remotas e encaixar o curso de graduação no esquema não-presencial me saturou. A simples organização da rotina ficou extremamente difícil. Não tinha mais hora para almoçar, dormir, e meus dias eram intermináveis, mas, com o passar do tempo, fui conhecendo meus novos colegas, compartilhando dos mesmos problemas e percebi que era assim mesmo, com todos nós. Abrimos mão de muita coisa para continuar o curso e isso me trouxe força para continuar.

O curso de PPP foi uma gratíssima surpresa. Ali, conheci tantas coisas novas. A professora aguçou nosso olhar para a importância de pesquisarmos em fontes seguras, conhecer o biografado e o biógrafo. Nesse período, o projeto foi escolher uma biografia e realizar um trabalho sobre ela. Escolhi Carolina Maria de Jesus. Fui me enredando naquela história, nos estigmas que ela sofreu, em toda a sua dificuldade. Uma mulher preta, favelada, pobre, contra tudo e contra todos. Foi um semestre renovador! No meio dessas descobertas, ouvia meus colegas apaixonados por seus biografados também. Quantas trocas enriquecedoras!

O semestre seguinte seria de mais desafios e de mais enriquecimento. O projeto Café Biográfico foi elaborado, realizado e executado de maneira on-line com maestria. Nós, graduandos, ficamos encarregados de abrir a mesa do dia com uma carta-texto. Escolhi a carta da Armanda Álvaro Alberto. Gravei o vídeo, emocionada. O projeto foi lindo. Palestrantes do mundo todo dividindo suas experiências, seus trabalhos e estudos. Foram compartilhados métodos e metodologias para a pesquisa ser rica, com destaque para a importância de se ter atenção aos detalhes.

A mesa do dia 03 de novembro de 2021 foi composta pelas professoras Sonia Câmara, como mediadora, Oresta Lopes Perez e Lia Farias. O assunto era “Mulheres, Política e Educação”. Esse dia foi particularmente especial para mim, pois ao fim das apresentações das pesquisas me senti instigada e convidada à luta feminina pelo resgate e reconstrução de tantas memórias esquecidas e vozes caladas. A professora Oresta mostrou que sua pesquisa buscou saber quem eram as professoras rurais, mulheres e professoras indígenas do México. Orestas usou de fontes orais, como entrevistas com as professoras, de trechos de cartas e de cartas inteiras para ouvir e ler das próprias professoras o que elas contavam sobre a dura realidade na qual estavam inseridas. Povoados totalmente desmantelados, onde o básico não era fornecido.

A professora Lia Farias, por sua vez, expôs seu estudo sobre a pesquisadora e historiadora Maria Yedda Leite, que completaria 100 anos naquele ano. Isso foi um ponto de questionamento, conforme levantado pela professora, pois, em 2021, também comemoramos o centenário de Paulo Freire e, diferentemente de Freire, Maria Yedda recebeu nenhuma ou pouquíssimas homenagens. Todas as falas, repletas de ativismo, luta, honra e de trabalho para a reconstrução das memórias femininas nos âmbitos político e educacional, me fizeram enxergar novos posicionamentos frente às desigualdades, de modo a compreender que a busca pelo reconhecimento só é possível se enfrentarmos as crenças e as práticas que nos inferiorizam e mantêm a supremacia masculina nos campos científico e político.

Com tudo o que foi vivido na PPP, o último semestre começou com um gostinho saudosista. Em especial no início do período, passei por momentos particulares muito conturbados: me mudei de residência, minha cachorrinha e eterna companheira ficou bastante debilitada precisando de cuidados médicos intensos, pois não consegue levantar-se do chão sozinha, terminei um relacionamento e, assim, não tive mais com quem contar para me ajudar com meu filho.

Na UERJ, algumas aulas voltaram a ser presenciais e, pelo aplicativo de celular, pude rever meus antigos colegas no edifício e ver a UERJ voltando a ser o que sempre foi. Ainda não compartilhei do burburinho gostoso na fila do elevador e nem comi o salgado da lanchonete do 12º andar, que fazia só para brincar com o funcionário, que é flamenguista. A minha expectativa é de conseguir retornar, mas confesso que não sei como será meu futuro na academia. Estou tentando encontrar uma rede de apoio para que eu prossiga com meus estudos na UERJ.

No entanto, pensando no que desejo estudar e realizando um balanço do que aprendi e do que mais gostei de estudar na PPP, senti um “bichinho me morder” para a pesquisa de biografias, principalmente de mulheres, que, pelo cenário histórico, reconhecido pela sua capacidade de exclusão e de não reconhecimento de suas lutas, foram caladas, inferiorizadas e esquecidas. As mulheres que estudei – Carolina Maria de Jesus, Armanda Álvaro Alberto, dentre outras – me deram coragem e me ensinaram que nenhuma dificuldade é maior que o desejo de seguir com seus sonhos.

Referências:

FARIAS, Tom. Carolina: uma biografia. Rio de Janeiro, Malê, 2018.

ALBERTO, Armanda Álvaro. Uma Carta de Armanda Álvaro Alberto. Lurdinha, 2013. Disponível em: https://lurdinha.org/site/uma-carta-de-armanda-alvaro-alberto-homenagem-ao-dia-dos-professores/. Acesso em: 18/05/2022.

Participação na live do Café Biográfico