Rodrigo Torres do Nascimento
O estado do Rio de Janeiro, em 2020, foi um dos primeiros estados a decretar o isolamento social, a necessidade de quarentena, e a suspensão das aulas presenciais, da creche ao ensino superior, como principais medidas para conter o avanço da doença causada pelo novo coronavírus[1]. Dentre as considerações elencadas pelo decreto do Governo do Estado, temos a saúde como “direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença”, como pautado pelo artigo 196 da Constituição da República. No âmbito educacional, coube ao Estado dar início à suspensão das atividades presenciais, o que, a princípio, deveria durar apenas 15 dias, com a antecipação do recesso escolar de julho. Entretanto, com o agravamento dos efeitos da pandemia, a suspenção tem sido prolongada e se perpetua até o momento de escrita deste texto, em fevereiro de 2022, principalmente, na educação. No âmbito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), há a manutenção das atividades remotas para algumas turmas, garantindo, assim, que o distanciamento físico permaneça vigente, em certa medida, para a preservação da saúde de estudantes, professores e técnicos administrativos.
Em diálogo com professores, foi difícil lembrar de um período com tantos desafios para a profissão docente como o desse momento, desafios impostos de muitas formas para toda a sociedade. Dar continuidade ao trabalho docente e discente nessas inusitadas condições, e em um início de muitas incertezas, revelou que nem todas as decisões adotadas foram as melhores no âmbito da universidade, uma vez que não é fácil quando a situação é nova e se lida com um grupo tão plural de pessoas. Foram jovens, adultos, estudantes, professores, funcionários e familiares impactados de maneira repentina e férrea pela pandemia da Covid-19. Cabe destacar, contudo, que a necessidade de preservação da vida se impôs de formas diferentes, mas, com força, a UERJ, por meio de seus órgãos deliberativos, optou por seguir pela preservação da vida, mesmo quando, ainda em 2020, alguns agentes públicos já haviam liberado o retorno presencial. Trata-se de um exemplo do exercício da autonomia da universidade face ao teor mortal da pandemia.
O retorno ao ensino presencial foi se tornando uma disputa ferrenha entre diversos setores. Os interesses são diversos e alguns pareciam não estar apenas preocupados com a educação e a saúde dos demais, como se a saúde, e, até mesmo, a vida dos estudantes e dos professores, fossem invisibilizadas diante do risco de perdas financeiras. Nesse aspecto, julgo importante citar um trecho escrito por Paul B. Preciado (2020, p.173), no qual o autor defende que “lo que estará en el centro del debate durante y después de esta crisis es cuáles serán las vidas que estaremos dispuestos a salvar y cuáles serán sacrificadas”[2].
Nesse sentido, coaduno com as questões levantadas por Santos (2020):
Existe um debate nas ciências sociais sobre ser possível conhecer melhor a verdade e a qualidade das instituições de dada sociedade em situações de normalidade, de funcionamento corrente, ou em situações excepcionais, de crise. Talvez os dois tipos de situação sejam igualmente indutores de conhecimento, mas certamente nos permitem conhecer ou ressaltar coisas diferentes. Que potenciais conhecimentos decorrem da pandemia do coronavírus?
Dentre muitas incertezas, o ensino remoto e a utilização de Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA) possibilitaram e vêm possibilitando, mesmo que de maneira diversa para muitas pessoas, o acesso à educação. Algumas das ferramentas, hoje, utilizadas pela maioria já vinham sendo empregadas na EaD há muitas décadas, sendo as transmissões radiofônicas o recurso pioneiro de ensino a distância, ainda servindo de veículo de informação escolar e de modo de comunicação. Assim, o que era muitas vezes restrito se tornou a regra para grande parte dos estudantes. Na minha experiência, enquanto estudante de pedagogia e já atuando em duas escolas da rede básica de ensino, constatei que as pessoas que viveram esse período comigo tiveram que reconstruir suas maneiras de atuação, sejam professores ou alunos, e readaptar para o virtual algo que sequer fora pensado para ele.
Não posso deixar de destacar que muitos estudantes e professores viveram e ainda vivem grandes dificuldades com alguns sites e aplicativos, como os ambientes virtuais de aprendizagem (AVAs), YouTube, WhatsApp, Instagram, Google Meet, Zoom etc. Entretanto, foram eles que garantiram que a educação formal não parasse. Interroga-se, ainda, como as tecnologias da informação refletirão no futuro desses sujeitos. Guiado pela compreensão de que a Educação possui uma vasta gama de possibilidades de se desenvolver, esses meios garantiram um ambiente de ensino não só aos jovens estudantes, mas também a outros sujeitos envolvidos no processo.
Um dos grandes debates realizados pela UERJ, nesse contexto, foi o de como garantir o acesso aos estudantes sem deixar ninguém “para trás”. Para tanto, foram criados, ao longo do período, vários auxílios aos estudantes e servidores, de forma a viabilizar o acesso, tal como o Auxílio Tecnológico, que ofereceu chip com pacote de dados, tablets aos estudantes e um valor semestral aos técnico-administrativos e docentes da UERJ. Mas a universidade, entendendo que não era somente a questão tecnológica que impactava a permanência dos estudantes nesse período, foi além e criou outros benefícios, a saber: Auxílio Alimentação, Creche, Material Didático e Bolsa de Apoio à Vulnerabilidade Social. Acredito que eles possibilitaram, ainda mais, que as aulas pudessem ser adaptadas ao ensino online e os estudantes tivessem a possibilidade de acessá-las e dar continuidade a seus estudos.
Nessa conjuntura, ao iniciar as aulas no ensino remoto, mesmo tendo uma boa familiaridade com os ambientes virtuais e com os recursos para acessá-los, o contexto pandêmico nunca me foi favorável. Muitas pessoas próximas perderam seus entes queridos, até que uma primeira pessoa mais próxima se foi e, embora não fosse alguém que visse recorrentemente, a sensação era de extrema tristeza. Tivemos que sobreviver ao vírus e, também, às angústias que o isolamento físico e as vidas perdidas iam nos causando. Eu seguia muitas vezes sozinho, dia a dia, em casa, acompanhando as aulas virtuais e confesso que muitas vezes foram elas que me confortaram e me tiraram do “isolamento” social.
Dentre as disciplinas realizadas nesse período, destaco a de Pesquisa e Prática Pedagógica (PPP), distribuída em quatro semestres seguidos, realizados de maneira remota. Durante a PPP, consegui atravessar o período pandêmico em maior diálogo com minhas colegas do curso de pedagogia e consegui perceber como íamos, a cada semestre, nos familiarizando uns com os outros e com as ferramentas digitais utilizadas nas aulas. No período de quase dois anos da PPP, diversos foram os recursos e as metodologias utilizadas e isso se constituiu em uma diversidade desafiadora, mas, ao mesmo tempo, bastante proveitosa e cativante no que concernia às possibilidades de pesquisa e de práticas pedagógicas em período pandêmico, cujas atividades do curso de pedagogia eram totalmente virtuais. Houve apresentações de biografias, escrita de textos, lives e, agora, estamos escrevendo o trabalho final da disciplina, a fim de refletir acerca do percurso realizado e dialogar, teoricamente, com as nossas vivências enquanto estudantes. Acredito que o caminho nos possibilitou uma maneira de compreender, também, como a disciplina se adaptou ao ensino remoto. Julgo que ocorreu de maneira satisfatória e em diálogo com as tecnologias disponíveis e de maior domínio de todas e todos.
Por meio das lives do Café Biográfico, pudemos conhecer diversas pesquisas no âmbito educacional que dialogam com temas relevantes no pensar político contemporâneo, as quais foram de grande relevância na minha formação não só teórica, mas também de reflexão sobre as novas ferramentas de comunicação que tiveram centralidade no período de isolamento social. Professoras e professores do Brasil e do exterior puderam, de maneira muito mais acessível, apresentar ao público geral e, a nós, estudantes de pedagogia, suas pesquisas, por meio da plataforma virtual “YouTube”.
Compartilho da seguinte noção de Luciano Floridi (2019): “[o] novo cria incerteza, mas também há descobertas e possibilidades. Há um continente no qual o viver não é apenas feito de perigos mortais, nem de paraíso na Terra”. O autor, professor de Filosofia e Ética da Informação e Diretor de Pesquisa do Oxford Internet Institute, reflete em seu livro The Onlife Manifesto (2015) como as mudanças proporcionadas pelas novas tecnologias não podem ser encaradas por uma visão dicotômica; deve-se, com cautela, observar os aspectos que podem garantir uma melhora da qualidade de vida das pessoas. Ademais, o autor percebe que as tecnologias digitais não são mais simples ferramentas; elas já se transformaram em “forças ambientais”. Com o início da pandemia, quando as pessoas para se protegerem contra o vírus da Covid-19 tiveram que evitar contatos e encontros físicos, essas noções de Floridi não só ficaram mais latentes, como também se tornaram imprescindíveis, dada a emergência sanitária do período.
Foram nestes ambientes virtuais, impostos pelo ensino remoto, que ouvi o relato alegre de uma estudante do 9º ano do Ensino Fundamental de uma escola da Educação Básica. Ela dizia que se sentia “mais confortável no ambiente virtual da escola”, pois, sempre se sentiu “muito tímida para se expressar na escola” presencialmente e, assim, encontrou, na virtualidade, uma possibilidade de maior facilidade para se sociabilizar com os demais colegas da turma e comigo, seu professor. Esse é um importante relato que compartilho com especial consideração, visto que acompanho, como professor, a trajetória escolar da aluna desde o 6º ano do ensino fundamental.
Com o encerramento da PPP, gostaria de continuar refletindo e pesquisando, mesmo quando a pandemia tiver seu fim decretado por completo, uma vez que as práticas desenvolvidas e as experiências vividas me levam a crer que seja pouco provável que metodologias e tecnologias de ensino utilizadas por mais de dois anos sejam deixadas de lado. Penso que um importante elemento da rotina de sala de aula foi rompido de modo irrecuperável. Foi um longo período conhecendo ferramentas que tornaram o acesso a diversas formas de aprendizado. O mais interessante é que foi um longo caminho assistindo a aulas virtuais com o uso crescente de imagens, vídeos e sons, os quais, em sua maioria, foram interessantes para mim, enquanto estudante, pois tive acesso livre e ininterrupto para poder assistir quando fosse mais conveniente. Foi o momento propício para aprender e ensinar tendo as redes sociais virtuais, espaço já dominado pelos jovens, como a principal ferramenta utilizada. É possível apagarmos tais experiências da memória, em especial de nós, estudantes, e retornamos ao quadro e ao piloto? Penso que não.
A experiência de estudante e pesquisador implica em atravessamentos de sentimentos e sensações. O pesquisador esmiúça os acontecimentos levando o estudante, e, também, professor que sou, a considerá-los. Nesse caminho, acredito que uma das inflexões da pesquisa autobiográfica é a imposição de situações desafiadoras e, por isso, eu gostaria de prosseguir com essas reflexões, ainda que eu as considere estranhas e muitas vezes difíceis. Mesmo encontrando tantos laços entre a sala de aula física e virtual e reconhecendo a importância dos ambientes virtuais para o momento pandêmico, eu, com o retorno do presencial, percebi sua grandeza, que, certamente, é difícil de ser substituída. Sem desmerecer a potência do mundo virtual, creio que, em muitos aspectos pedagógicos, a vida de um estudante no contexto presencial não é substituível, principalmente ao considerarmos a interação dos sujeitos quando em conjunto. Existem, portanto, limitações importantes nas redes virtuais, assim como há limitações na vida presencial. Entretanto, a experiência que pude ter com o retorno parcial de aulas presenciais evidencia que essas considerações não buscam vilanizar um ou outro modo de ensino-aprendizagem, uma vez que se trata de formas de ensinar e aprender diferentes. Algo que já era, certamente, comum no ensino presencial, agora, faz parte, também, do ensino remoto: cada um, no seu tempo, aprende e ensina de maneiras diversas, mas nunca deixa de fazê-los. Afinal, na pandemia ou fora dela, virtual ou presencialmente, se vai à universidade para aprender e, em nosso caso especial, para aprender a ensinar.
Referências:
FLORIDI, Luciano. (Ed.) The Onlife Manifesto: being human in a hyperconnected era. Oxford: Springer Open, 2015.
_______. A era do onlife, onde real e virtual se (com)fundem. Entrevista com Luciano Floridi. Tradução de Luisa Rabolini. Portal Instituto Humanitas Unisinos, 2 de outubro de 2019. Entrevista de Jaime D’Alessandro, publicada originalmente por La Repubblica em 29 de setembro de 2019. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/593095-luciano-floridi-vou-explicar-a-era-do-onlife-onde-real-e-virtual-se-com-fundem> Acesso em: 10 de Agosto de 2021.
IBGE. PNAD Contínua – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua. Acesso à Internet e à televisão e posse de telefone móvel celular para uso pessoal 2019. Rio de Janeiro: IBGE, 2020. Disponível em: <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101794_informativo.pdf>. Acesso em: 24 de Agosto de 2021.
O que é a Covid-19?. Ministério da Saúde, 2021. Disponível em: <https://www.gov.br/saude/pt-br/coronavirus/o-que-e-o-coronavirus>. Acesso em: 07 de Janeiro de 2022.
PRECIADO, Paul B.. Aprendiendo del vírus. In: AGAMBEN, Giorgio et al. Sopa de Wuhan: pensamiento contemporáneo en tiempos de pandemias. Madrid: ASPO, 2020. 188 p.
RIO DE JANEIRO (Estado). Decreto nº 46.966, de 11 de março de 2020. Dispõe sobre as medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do coronavírus, e dá outras providências. Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 11 mar. 2020. Parte 1, p. 1.
SANTOS, Boaventura de Souza. A cruel pedagogia do vírus (Pandemia Capital). São Paulo: Boitempo, 2020.
Participação na live do Café Biográfico
[1] Segundo o site do Ministério da Saúde do Brasil (2021), “a Covid-19 é uma infecção respiratória aguda causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, potencialmente grave, de elevada transmissibilidade e de distribuição global”.
[2] “O que estará no centro do debate antes e depois desta crise é quais serão as vidas que estaremos dispostos a salvar e quais as vidas serão sacrificadas” (tradução livre da revisora).
