Julia Magalhães Moreira Savaget de Brito
A pandemia causada pelo novo Coronavírus (COVID-19) tornou-se um dos grandes desafios do século XXI. No Brasil, o registro do primeiro caso ocorreu em 26 de fevereiro de 2020 no estado de São Paulo, onde estava ocorrendo uma das maiores festas do ano: o carnaval. Como pouco se conhecia sobre esta nova cepa e suas consequências para o ser humano, ela vinha se disseminando rapidamente.
Lembro-me de ouvir sobre o primeiro caso da doença no Rio de Janeiro na sala da minha casa de praia em Saquarema, onde estava descansando com minha família no período do feriado de carnaval. Assim que foi exposto esse novo acontecimento, nem eu e nem a população brasileira acreditava que essa “onda” nos alcançaria de uma maneira tão rápida. Dessa forma, todas as atividades continuaram normalmente, porém duraram poucos dias.
A nova onda chegou ao Rio de Janeiro em março de 2020. Após uma semana de aula, a UERJ parou, assim como todo o comércio que não era essencial. Lembro-me de estar na casa da minha avó estudando com a minha irmã para um simulado que iria acontecer na escola dela e, quando ela soube do fechamento de tudo, festejou, pois não precisaria mais estudar.
Com o passar dos dias, tudo começou a mudar, a ficha começou a cair e pôde-se perceber a profundidade do que iríamos enfrentar sem saber o que poderia acontecer. Diversas informações foram divulgadas sobre o novo vírus e, a cada dia que passava, os números de contágio e de morte subiam muito rápido. O medo do contágio era enorme e, mesmo assim, muitos precisavam se arriscar nas ruas por necessidade.
Com o lockdown, a UERJ fechou e, com isso, comecei a pensar como ficariam meus estudos. Após meses sem respostas veio uma forma de solucionar esse problema: a UERJ implementou o ensino remoto através do Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e, mesmo sabendo que poderiam aparecer dificuldades, vi uma luz no fim do túnel, pois era uma forma de voltar a ter contato com os estudos. Com o retorno das aulas, acreditei que poderia levar de forma tranquila o período acadêmico emergencial, já que seria por um curto tempo. Com o passar dos meses e com o avanço da pandemia, pude perceber o quão difícil é estudar de forma remota e que, de fato, não ia ser apenas um período. O ensino remoto, na minha opinião, foi uma ótima medida emergencial, mas não consegui me adaptar a esse modelo. O contato com a sala de aula é fundamental, para mim, e a metodologia que muitos professores utilizaram não funcionou.
Foi muito difícil achar a melhor maneira para me organizar com os estudos, pois não possuo, em minha casa, um ambiente que fique disponível apenas para mim. De todo modo, fui tentando arranjar formas de me adaptar. Cursar Pedagogia on-line, um curso cuja prática é muito importante, foi difícil. Compreender os diferentes conhecimentos somente por textos, vídeos, sem estar na sala de aula está sendo um processo difícil de se passar. Até hoje tenho muita dificuldade em me concentrar nas aulas assíncronas e, como são muitas, às vezes acabo até deixando de cumprir algumas atividades.
Além disso, perdi meus avós. Meu avô fez sua passagem em 2020 e minha avó, em 2021. Nenhum de COVID, mas foi uma perda muito dolorosa para mim, já que eu era muito próxima, tendo cuidado deles e dado toda a minha força até o último segundo de vida. Nesse sentido, fiquei meses sem frequentar sua casa por medo de pegar e transmitir o vírus. Meu maior medo era perder meus avós; eles sempre foram tudo na minha vida. Lembro-me de pegar e deixar coisas na porta da casa deles, sem ao menos entrar, e só nos víamos de longe, mas nos falávamos todo dia ao telefone – era uma forma de tentar diminuir a distância e a saudade.
Meu avô, infelizmente, nem conseguiu ver a vacina; já a minha avó tomou sua primeira dose e, dois dias antes de tomar a segunda, teve que ser internada no hospital. Sigo tentando ser forte, levando meus estudos com muita dedicação, pois eles tinham e têm muito orgulho de eu ter passado para a UERJ e ter escolhido essa profissão tão incrível. Além disso, também ficaram felizes por eu ter seguido os passos da minha avó, meu grande amor, que passou anos da sua vida se dedicando à educação como professora e diretora.
No que concerne à minha entrada na faculdade, lembro que estava de férias na minha casa de Saquarema – a mesma da notícia da COVID – com meu pai e minha irmã mais nova. De repente, recebo uma ligação da minha melhor amiga, que estuda jornalismo na UERJ, e que estava com a minha mãe e a minha irmã do meio indo para nossa casa de praia, dizendo que eu havia sido aprovada. Não acreditei, desliguei o telefone e corri para achar a lista de classificados e, para a minha surpresa, lá estava o meu nome. Na mesma hora contei para todo mundo: meu pai, meus avós e todo mundo que sempre torceu por mim.
Antes de começar a cursar pedagogia, em 2017, quando sai da escola, comecei a cursar nutrição em outra faculdade. Cursei dois períodos e percebi que estava no lugar errado. Fiz um ano de pré-vestibular, mas já sabia que iria para a pedagogia, que era a minha primeira opção desde pequena. Não comecei direto nela, pois não segui meu coração e ouvi opiniões alheias. Hoje, sei que escolhi o curso certo e não me vejo trabalhando em outro campo. Entrei para a UERJ, então, em 2019, no período matutino, pois prefiro estudar de manhã. Era meu sonho estar nessa universidade!
Todo dia, meu pai me dava uma carona, já que ia levar minhas irmãs para escola. Sempre fui muito dedicada à faculdade, só faltava à aula se acontecesse algo muito sério. Na minha rotina diária tinha um momento reservado para o estudo. E, então, veio a pandemia…
Com o ensino remoto e a possibilidade de estudar em casa, peguei mais de cinco disciplinas no primeiro período, mesmo não sendo recomendado, pois achava que conseguiria dar conta, iria ser mais fácil e poderia antecipar minha formação. Mas, com o passar dos dias, percebi que não era bem assim. Não consegui me adaptar muito bem ao ensino a distância. Tentava fazer um cronograma para dar conta de tudo, de todos os trabalhos e de todas as leituras de textos e outras coisas, mas não conseguia cumprir à risca. Alguns textos não foram lidos e alguns trabalhos foram feitos às pressas.
Esse período tem sido muito difícil; o mais difícil, na minha opinião, haja vista os diversos trabalhos para entregar, as aulas síncronas para acompanhar e os estágios obrigatórios para cumprir. Infelizmente, não consegui me dedicar ao máximo em todas as disciplinas, mas tentei fazer o meu melhor.
Entrei na UERJ em uma turma muito unida, com uns ajudando aos outros. Também fiz amizades que vou levar para sempre comigo. Por isso, não vejo a hora de tudo retornar e poder voltar para o lugar que sempre sonhei estar, ao lado de pessoas tão incríveis. Voltar para a UERJ vai ser um recomeço, como se tudo voltasse do início, já que a pandemia mudou a vida de todos.
Ao final do 2° período, para o início do 3°, é preciso escolher uma matéria, a PPP, que dura 4 períodos, e que serve de introdução à disciplina de monografia que temos no final do curso. Fiquei muito apreensiva, pois seria uma escolha que depois não poderia ser alterada e ainda não sabia o que, de fato, queria pesquisar. Ao serem disponibilizados os temas de PPP, percebi que só teria 3 temas disponíveis para minha escolha e, como não tinha tanta certeza, acabei escolhendo por eliminação.
A PPP que eu havia me interessado, cujo nome não me lembro mais, mas tratava de infância, seria oferecido no horário da noite, e, por estudar na parte da manhã, não conseguiria cursá-la. Por conta disso, fui à reunião de apresentação das PPPs aos estudantes. Nessa reunião, foram os alunos da professora Ana Chystina Mignot que apresentaram a disciplina. Depois, pesquisei um pouco sobre cada tema e acabei escolhendo a de Estudos Aplicados, torcendo para que eu tivesse feito a escolha certa.
No início, fiquei com um pouco de medo; não sabia o que esperar da disciplina, já que nunca havia tido contato com biografias, mas a curiosidade de aprender um pouco da biografia de alguns autores importantes para a pedagogia falou mais alto. Quando a disciplina se iniciou ainda estávamos no modo presencial, mas logo tudo fechou.
Com o advento da pandemia, a PPP retornou de forma remota. O medo voltou, pois não sabia como ia ser o desenrolar dessa disciplina, já que era algo totalmente novo para mim. Assim que começou, consegui assistir a várias aulas de modo síncrono, diferentemente desse período, pois estou fazendo estágio e minha rotina anda muito corrida. Felizmente, consegui acompanhar as aulas não assistidas de maneira síncrona a partir dos vídeos gravados que são disponibilizados no AVA. Gostei bastante desse método, pois, dessa forma, consegui assistir a todas as aulas e não fiquei tão perdida.
Dentre as atividades propostas pela disciplina, gostei muito da atividade de pesquisar e escrever sobre a biografia de algum famoso. No começo, tive um pouco de dificuldade para encontrar uma que me chamasse atenção, já que nunca tinha lido uma biografia. Escolhi a biografia do Silvio Santos. Fiz essa escolha, pois minha avó, aquela que mencionei no início do texto, era muito fã dele. Toda vez que eu dormia na casa dela no domingo eu assistia ao programa dele em sua companhia, dávamos várias risadas e, no dia seguinte, falávamos sobre o programa. Tenho várias recordações felizes com ela vendo o programa do Silvio.
Outra atividade que foi muito interessante foi o Café Biográfico, que acabou sendo uma oportunidade de debater sobre diversos temas importantes, com a presença de vários professores de diferentes regiões do país, que puderam agregar de forma positiva em nosso conhecimento. Foi muito marcante na minha caminhada, já que nunca tinha tido uma experiência tão única quanto essa.
No Café Biográfico foram abordados diferentes temas. Um que gostei bastante foi o “Desafios de biografar”, que foi o tema que escolhi para meu trabalho final na PPP do período passado. Essa mesa destacou que, nos últimos 30 anos, a biografia deixou de ser algo progressivo e tem se tornado dominante. Com isso, a volta do dado biográfico torna-se essencial para a crítica literária. Destacou, igualmente, que um aspecto do biografar é o movimento que se faz com muitos outros, com as muitas “pessoinhas” que estão dentro de nós. Quando biografamos trazemos esse amontoado de gente, de histórias. Ademais, biografar, como movimento de escrita, é, além de uma escrita de si, uma escrita do e com os outros no mundo. O maior desafio de biografar é anunciar a vida.
Escolhi a live intitulada “Desafios de biografar”, pois trata de um assunto que não tenho muito conhecimento e acredito que escrever sobre a vida de alguém exige muita responsabilidade, dedicação e paciência. A partir das discussões da mesa pude compreender os desafios e os desejos de biografar. Gostei bastante desse encontro e acredito que a fala dos professores agregou muito para a minha formação. O Café Biográfico foi, sem dúvidas, uma experiência rica, de muito aprendizado e ter tido essa experiência é muito gratificante. Enfim, gostaria de destacar que a PPP tem contribuído bastante para a minha formação profissional, ao mostrar a importância dos registros e anotações, que podem nos ajudar futuramente como objetos de pesquisas.
Ao falar de futuro, ainda não sei ao certo sobre o que irei escrever na monografia. Penso seguir o caminho de pesquisar sobre a importância da Educação Infantil, já que é onde pretendo atar futuramente. Amo crianças e meu sonho, desde pequena, sempre foi ser professora. Esse período tive a disciplina de estágio obrigatório na Educação Infantil e pude ter a certeza de que é na sala de aula que quero passar a maior parte dos meus dias, se possível com as crianças pequenininhas, de 2 e 3 anos.
A Educação Infantil é uma fase que necessita de atenção diferenciada, ou seja, a atenção do professor é fundamental para a aprendizagem dos alunos. É o período em que se trabalha a estruturação da criança. Por meio de atividades lúdicas, desenvolve-se a coordenação motora, a linguagem e a sociabilidade.
Os anos iniciais abrangem a etapa de ensino em que se realiza a alfabetização e o desenvolvimento intelectual da criança. Os estudantes aprendem a ler, a escrever e a realizar operações matemáticas simples para trabalhar as capacidades de leitura, interpretação e raciocínio.
A Educação Infantil, por sua vez, é essencial porque apresenta um papel de destaque no desenvolvimento humano e social da criança. Ela vai evoluir de forma cognitiva, tendo contato com diversos objetos e com a arte, a cultura e a ciência, dando vazão à sua criatividade na escola. Essa instituição, portanto, deve ser um espaço preparado, com professores que levem em conta a criatividade e a capacidade da criança que já tem um conhecimento prévio, tem uma história e a sua própria linguagem. Acredito que esse tema seja de suma importância, pois nós, professores, devemos refletir de forma crítica sobre nossa práxis pedagógica, traçando metas e estratégias para que o ensino seja contextualizado e carregado de significado para que a aprendizagem seja eficaz. Também devem ser levados em conta os desafios que esses alunos, como cidadãos, enfrentarão no futuro.
A Educação Infantil é deveras importante para o desenvolvimento da criança, principalmente por se constituir como um espaço de aprendizagens e de ludicidade, respeitando a criança, auxiliando-a no desenvolvimento de suas capacidades e na construção do conhecimento. Esta fase do ensino oportuniza as interações entre crianças e adultos, assim como o contato e a exploração de objetos. É uma etapa escolar rica em experiências consideradas importantes por Piaget no processo de desenvolvimento infantil. Por isso, é necessário que, nas instituições de Educação Infantil, haja espaços e momentos para que o brincar aconteça. Sendo livre ou uma atividade dirigida, o professor precisa reconhecer que a brincadeira pode desenvolver potencialidades nas crianças, uma vez que o desenvolvimento infantil se dá através da interação.
É fundamental, enfim, construir uma proposta pedagógica baseada nas experiências e demandas da turma, oferecendo atividades que contemplem as diferentes áreas do conhecimento e que tenha o aluno como protagonista da sua aprendizagem. Acredito que a discussão seja muito relevante, já que, a partir das questões que serão analisadas, será possível que outros profissionais possam refletir sobre sua prática com as crianças em idade pré-escolar e passem a ter, assim, uma visão mais abrangente do tema.
Participação na live do Café Biográfico
