Afetividade e pandemia: antes e depois

Tatiana Felizardo Alvarenga Mendonça

Comecei o semestre, em 2020, com as expectativas de sempre: me inscrever nas disciplinas, aguardar os resultados no SAID e, após o carnaval, iniciar as aulas. Recordo-me de minha mãe me contar que um dos patrões dela, que é médico, comentou sobre uma doença de fora do país. Logo depois, ao final de 2019 e início de 2020, aconteceu como programado: a doença avançou e as notícias começaram a surgir em todas as mídias. Mesmo assim, o carnaval aconteceu. Na escola onde trabalho, muitas pessoas reclamaram do tempo chuvoso durante a folia, pois estavam preocupados de a chuva atrapalhar após colocarem o bloco na rua. Recordo-me de dizer a elas: “Deus sabe o que faz!” Passados os dias de folia, houve um alargamento no número de casos de COVID-19. Lembro, inclusive, de o patrão da minha mãe dizer que sairia do Rio de Janeiro por 2 ou 3 meses, pois estava com medo. Ele dizia: “a coisa está feia, dona Penha!”

No meu retorno ao trabalho, só trabalhamos umas duas semanas e logo veio a notícia de que precisaríamos parar por quinze dias devido ao grande número de infectados e essa notícia deixou a nós, funcionários, preocupados. Os dias de trabalho da minha mãe diminuíram, pois um dos patrões dela, de fato, saiu do Rio e foi para Angra, apesar de ter continuado pagando as diárias dela. Eu fiquei em casa; saía, no máximo, duas vezes na semana a pé para evitar aglomeração. O contato com amigos e familiares era por telefone ou por chamada de vídeo. Eu cuidava do meu pai, que mora em Macaé, por telefone e fiquei muito preocupada, porque ele e a companheira têm diabetes e meu pai pegou COVID-19. Que fase! Que momentos difíceis! Até para acalentar a perda de um vizinho nosso muito querido teve que ser por telefone. Ele contraiu o vírus, ficou internado e, para a nossa tristeza, veio a falecer. Foi muito triste não poder estar presente e levar aquele abraço apertado aos familiares, mas sabemos que os acarinhamos da melhor maneira possível no momento: retomamos um hábito antigo, que já não se faz mais com tanta frequência, mas que eu, particularmente, gosto – escrevi uma carta cheia de carinho e coloquei na caixa de correio. Esse gesto me causou comoção aos escrever e, também, neles, ao receber. Aliás, durante o momento pandêmico, tivemos a oportunidade de ver de perto e de longe a empatia, o cuidado e a solidariedade de certas pessoas para com o próximo, principalmente com os idosos, que eram os mais vulneráveis. Uma conhecida do prédio onde moro, por exemplo, se propôs a ir ao mercado para seus vizinhos para evitar que eles ficassem expostos.

A UERJ ainda estava se organizando para ver qual seria a melhor forma para o retorno. No meu trabalho, ficamos no remoto e, logo, começaram as novidades para mim. Sou auxiliar de turma em uma escola na zona oeste do Rio de Janeiro e a regente da turma me convidou para participar dos encontros on-line com as crianças para mantermos o vínculo, que é algo importante. Eram de três a quatro encontros feitos com pequenos grupos. Como aquecia o coração ver aqueles rostinhos, mesmo através de uma tela! Os encontros tinham músicas, contação de história, comemoração de aniversário e propostas com brincadeiras populares. Uma delas foi a de fazer e brincar com bola de meia, como incentivo para as crianças e as famílias resgatarem esse tipo de brincadeira. A regente, eu e a estagiária também fizemos, mas como eu não tinha meias velhas, fiz de jornal coberta com retalhos. Foi um desafio gravar o vídeo fazendo o passo a passo da confecção da minha bola, já que, devido à pandemia, todos estavam em casa e o barulho estava sempre presente, mas consegui.

A suspensão no trabalho, que seria de quinze dias, durou meses. Por conta disso, tivemos férias adiantadas, salário reduzido e passamos a receber o auxílio do governo. Na UERJ, as coisas estavam caminhando e, em setembro, foi dado o primeiro passo para o retorno e para, assim, termos nosso primeiro semestre de 2020: foi o início de novos desafios. Na internet, eu me via apenas fazendo o básico, mas, com a implementação de aulas on-line, tivemos que baixar aplicativos, assinar presença de maneira remota, apresentar trabalhos e nos organizar para os estudos em casa, sem as trocas e as discussões que o ensino presencial proporcionava, fora que a diminuição da capacidade de concentração. Confesso que tudo isso me desanimou. Vi pessoas conhecidas trancarem a matrícula; outras, não conseguirem acompanhar as aulas por falta de recurso, como um smartphone ou um pacote de internet de qualidade. Ainda estou me adaptando, assim como muitas pessoas que conheço, mas a vida é um aprendizado diário.

Em relação à minha entrada na universidade, cabe destacar que tudo começou com o fato de, na escola onde trabalho, existir um pré-vestibular comunitário. O pai de uma amiga, que trabalha em outra unidade, tinha cursado o pré-vestibular em 2016 e, no ano seguinte, eu e minha amiga decidimos que iríamos cursá-lo também, para fazermos o Enem. Fizemos a inscrição, passamos por uma entrevista, fizemos uma pequena redação e fomos aprovadas. As aulas eram ministradas pelos melhores alunos da escola, mas sob orientação dos professores. Eu, que havia terminado o ensino médio há mais de dez anos e, portanto, estava fora da sala de aula há muito tempo, me vi entre fórmulas matemáticas, diversos textos etc.

Durante o curso, eu saía do trabalho às 18:30h, ia correndo com a minha amiga e estudávamos à noite. Ela me ajudava muito! Finalmente, fizemos nossa inscrição para o Enem e, no dia da prova, lá fomos nós. Meu resultado não foi bom, mas, nesse ínterim, também haviam começado as inscrições para o vestibular da UERJ, de modo que fiz minha inscrição, imprimi o boleto de pagamento e deixei em um canto. Recordo-me de um colega do pré-vestibular comentar sobre a prova e perguntou se eu iria fazer, respondi que ainda não tinha certeza. Dias depois, o mesmo colega me disse que as inscrições haviam sido prorrogadas e, novamente, ele perguntou se eu iria fazer. Ratifiquei dizendo que não sabia. É incrível como, muitas vezes, as pessoas acreditam mais na gente do que a gente mesmo, não é? Por isso, cheguei em casa, refiz a inscrição, paguei e aguardei o dia da prova da 1ª fase. 

No dia da 1ª fase do vestibular da UERJ, estava nervosa, tensa, mas fiz a prova. Quando saiu o resultado, me vi aprovada para a segunda fase e… não sabia o que fazer! Escolhi pedagogia; ou, talvez, ela tenha me escolhido. Mil perguntas surgiram na minha mente: como será a prova discursiva? E os livros para ler, como vou fazer? Para a segunda prova seria preciso ler três livros; me recordo de dois: Ensaio sobre a Cegueira e Morte e Vida Severina. Inicialmente, me espantei com as leituras por falta de hábito, uma vez que gosto de ler romances, ainda que eu leia pouco, até porque, livros não são baratos. Eu não conhecia Ensaio sobre a Cegueira, mas o pai da minha amiga conseguiu emprestado para mim; já Morte e Vida Severina eu tinha duas recordações bem frescas na memória: uma, de um filme que assisti, e a outra, de uma animação em preto branco que vi recentemente. 

Assim, foi dada a largada. No pré reforçaram os estudos para quem iria fazer a prova discursiva. Eles eram muito pacientes e nos davam força para nos sentirmos confiantes. Confesso que fiz a prova com receio, mas saí aliviada e com a certeza de que havia feito o meu melhor. Passados muitos dias, saiu o resultado. Vi e, como não entendi muito bem, deixei para lá. No fim de janeiro de 2018, a professora de redação do curso me enviou uma mensagem perguntando se eu havia visto o resultado, à qual respondi que sim, que havia visto as notas, mas não a colocação. Então, ela pediu que eu olhasse. Ao ver, tive uma imensa surpresa: eu estava aprovada! Fiz um print do resultado e enviei para a minha amiga. “E agora? Como vai ser? E meu trabalho?” – foram os meus primeiros pensamentos. Vivi um misto de emoções, principalmente por ter escolhido o horário noturno e saber que não iria conseguir chegar a tempo, além de sair tarde e minha mãe ficar preocupada. Minha mãe ficou muito feliz com a minha conquista e, antes das aulas começarem, fomos dar uma volta para que, mesmo por fora, eu pudesse conhecer a grandiosidade do lugar onde eu iria estudar. Foi a primeira vez que andei de metrô. 

O pai da minha amiga, sobre quem comentei no início, é porteiro e, por coincidência, o filho de uma professora da UERJ estuda lá. Ele comentou sobre meu problema com o horário e, como havia uma aluna que gostaria de passar para o turno da noite e eu querendo passar para o turno da manhã, essa professora fez a ponte entre nós e no dia de fazer a pré-matrícula nos encontramos para fazer a troca.

Quando cheguei na UERJ e entrei, fiquei perdida, vislumbrada com o tamanho e com o fato de ser a primeira universitária da família – que benção! Quando contei no trabalho, fui parabenizada e, no dia do retorno das professoras, aconteceu o que eu mais temia: a coordenadora me levou para a reunião e contou a novidade para todos. Morri de vergonha, pois não gosto de ser o centro das atenções, mas fui aplaudida por todos, principalmente por ter passado na ampla concorrência (até tentei, mas não entrei pelas cotas).

Passou o carnaval e as aulas começaram. Mesmo ficando na universidade até as 10:30h, pois preciso estar no meu trabalho, que é no Recreio dos Bandeirantes, às 12:30h, tento aproveitar, ao máximo, cada momento. Participei do trote; o hall do 12º andar estava lindo, lotado, repleto de energia boa. Desci a rampa de “elefantinho”, participei de parte do tourpela UERJ que os veteranos fizeram com os calouros, fui pintada, tirei muitas fotos e conheci várias pessoas que, com o tempo, fomos estreitando laços. Chegou o dia de início das aulas, efetivamente, e me vi entre muitos textos, um fáceis, outros densos, muito densos, além dos trabalhos seguindo as “regras da ABNT”. O que é a ABNT? Nunca tinha ouvido falar. Trabalhos digitados? Logo eu, que “cato milho” no teclado! O nervosismo era tanto e, ainda é, que lembro que, na primeira vez que apresentei um trabalho, fiquei de costas para a turma, até que a professora fez sinal para eu virar, virei, pedi desculpas e continuei.

Minha turma era muito unida e prestativa. Havia sempre um ajudando o outro como podia e da sua maneira. Os períodos foram passando e eu, devido ao trabalho, fiquei um pouco atrasada nas disciplinas, mas, nas turmas das quais fiz parte, sempre fui bem recebida e ajudada no que precisei. Falo e tiro dúvidas com frequência com as meninas com quem estreitei laços, lá no início, mas, algumas coisas, agora, tenho que fazer sozinha e é um desafio atrás do outro.

O ano de 2018 foi um divisor de águas na minha vida. Entrei na universidade, passei a, infelizmente, chegar em cima da hora ou atrasada no trabalho e mudei minha rotina, pois acordava às 6 horas da manhã, tomava meu café, ia para academia e, depois, para o trabalho; agora, acordo às 4:30h da manhã, saio de casa às 5:30h, uma vez que preciso estar na UERJ às 7 horas e às 10:30h saio de lá correndo para ir trabalhar. Como dito, os desafios são diários e frequentes, mas fazem parte. Cada disciplina tem uma novidade, um desafio, mas o meu maior medo, que é a monografia, ainda me aguarda no fim do “túnel”. Ela está cada vez mais próxima, já que, finalmente, estou fazendo a PPP IV. Quanto aprendizado até aqui! Quantas trocas e discussões ricas em sala! Quantos professores e colegas conheci, cada um com suas experiências de vida e dificuldades, assim como eu! 

Em relação à PPP, aprendi muito. Fiz minha escolha quando li que trataria sobre a infância, cujo título era “Viagens, biografia e políticas para a infância”. Mesmo sem saber como esse tema seria tratado e abordado, me inscrevi pela primeira vez e não consegui, pois já não havia vaga. Infelizmente, não foi só para nós, universitários, mas também todo o mundo, que chegou a COVID-19, e, por isso, as inscrições que tínhamos feito no início de 2020 precisaram ser refeitas, entre agosto e setembro daquele ano, e, assim, consegui minha vaga na disciplina que, desde o início, variava entre encontros síncronos e assíncronos.

Começamos a PPP I em setembro. Tivemos a oportunidade de estudar com duas professoras: a professora Ana Mignot e a professora Nilda Alves. Começamos nossos encontros e as dúvidas de como eles seriam permaneceram. No início, fiquei um pouco perdida. As professoras nos traziam suas experiências e nos propunham algumas leituras para discussão, como “Eternizando travessia: memórias de formação em álbum de viagem”, texto escrito pela professora Ana Mignot. Nele, a autora relata a viagem de Laura Jacobina, educadora que foi estudar em Genebra e representou a Associação Brasileira de Educação no IV Congresso Internacional de Educação Nova, evento que tinha como objetivo propagar os princípios da educação moderna. O texto foi publicado na Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográficas.

Nossa primeira avaliação consistiu em escrever um artigo para o jornal eletrônico Educação e Imagem. Além disso, tivemos encontros para discutir sobre trabalhos e textos propostos e sobre o filme O menino que descobriu o vento. O filme tratava de vários assuntos, como a luta de uma família pela educação dos filhos, o contexto de um país com uma política que não aceitava pensamentos diferentes ou críticas, a dificuldade de uma população que sofreu com chuvas e secas e a falta de alimentos que gerou saques e violência. Em seguida, na segunda avaliação, fomos convidados a assistir a lives da ANPED, para, depois, escolher uma mesa debatedora para fazer uma resenha.

Na PPP II assistimos a Menino 23, um documentário instigante e curioso, que mostra, por exemplo, a importância da escuta em sala de aula, pois foi ao ouvir sua aluna, que um professor descobriu que, na fazenda da família dela, havia vários tijolos com o símbolo nazista (suástica). Gostei tanto desse documentário que disse para um amigo, que é professor, que ele precisava assistir. Ademais, nos foi proposto assistir ao filme Cartola, por toda minha vida, que trazia detalhes importantes da vida do cantor e compositor. Ao mesmo tempo, já estávamos trabalhando com biografias. A proposta era que cada aluno escolhesse uma biografia para fazer um trabalho – para mim, novos desafios. Nunca havia lido uma biografia e pensava como iria apresentar um trabalho on-line. Slide? Foi a primeira vez que montei um slidesozinha! Havia trabalhos lindos, pois cada um trouxe sua visão sobre a biografia escolhida, com muito encantamento e, mesmo com as dificuldades de alguns em conseguirem os livros, cada um se esmerou para trazer o melhor de Elza Soares, de Oswaldo Cruz, de Anita Garibaldi, da princesa Isabel, entre outros. 

A biografia que escolhi foi a de Chiquinha Gonzaga. Não foi uma escolha fácil, mas decidi fazer sobre ela depois de conversar com um amigo, aquele para quem eu indiquei o documentário Menino 23, pois, como ele tinha o livro, logo me emprestou e pude dar início ao trabalho. Ela dá nome à escola onde terminei meu ensino médio, em 2004, portanto, falar de Chiquinha Gonzaga foi desafiador, mas gratificante ao ver o resultado. Trata-se de uma mulher precursora, à frente do seu tempo, autora da primeira marchinha de carnaval do Brasil. Abandonou casamento e filhos, pois não aceitava ser submissa ao marido e não se via longe da música. Trata-se de uma mulher que viveu um romance com um rapaz trinta anos mais novo, que lutou por seus ideais e que desejava para sua vida mais do que a sociedade da época impunha. No dia de apresentar meu trabalho, eu tremia de tanto nervoso. Fiquei perdida em meio a tantas anotações que havia feito, não conseguia compartilhar a tela com o slide, de modo que precisei passar para o Nílton, um colega, e ele compartilhou para mim. Também acabei esquecendo de abrir a câmera, mas, no fim, deu tudo certo. Com o fim das apresentações, cada uma melhor do que a outra, terminamos a PPP II.

A PPP III foi um presente. Temos reclamado e nos questionado acerca do que a pandemia nos tirou e limitou, mas, apesar de tudo, a PPP III nos proporcionou momentos e encontros únicos de aprendizado, emoções e trocas. Se esse encontro fosse presencial não teria o mesmo sabor: trata-se do Café Biográfico. Foi um presente idealizado pela professora Ana Mignot, com iniciativa da linha de pesquisa da qual faz parte, no âmbito da CAPES-PrInt, com o apoio da Faperj. Foram encontros semanais riquíssimos, por meio dos quais pesquisadores e professores dividiram suas pesquisas e trabalhos, sob a mediação de excelentes professores, com temas muito interessantes. Destaco a mesa de Eliseu Clementino de Souza, Maria Celi Vasconcellos e Pablo Alvarez Domingues, mediada por Eveline Gomes. Inicialmente, trataram do fato de as vidas perdidas pela COVID-19 implicarem na perda de histórias diversas. Falaram, igualmente, sobre a Viscondessa de Arcozelo que teve seu diário, de 1887, utilizado como fonte de pesquisa. A mesa era intitulada “Egodocumentos como fontes de pesquisa (auto)biográficas”. Outra mesa que gostei bastante foi a que contou com a participação de Patrícia Coelho, Caio Dias Alves e Diane Valdez e foi mediada por Washington Dener, cujo tema era “Biografias no Ensino de História e História da Educação”. Houve falas valorosas sobre autobiografia na escola, história de vida como patrimônio da humanidade e sobre a primeira escritora negra de Goiás: Hildegária de Jesus. Foram onze lives maravilhosas; onze manhãs de quartas-feiras ricas em aprendizado, em compartilhamento de pesquisas, em conhecimento e emoções. 

A proposta de avaliação dessa PPP consistia na escolha de uma das onze lives do Café Biográfico para fazer uma resenha. Escolhi a do dia 13/10/2021, cujo tema era “Mulheres, Vida e Educação”, de Heloisa Meirelles dos Santos, Ana Cristina Francisco e Daiane Tavares, com mediação da professora Jussara Pimenta. As palestrantes tiveram falas maravilhosas e bem marcantes. A professora Ana Cristina nos falou sobre a condessa de Barral, mulher de grande conhecimento social, responsável pela educação das princesas Isabel e Leopoldina. Já a professora Heloisa Meirelles tratou sobre mulheres invisibilizadas, como Esther Pedreira. Aprendi que o termo “fiapos” é utilizado para classificar essa invisibilidade. Por fim, a professora Daiane Tavares me emocionou e me deixou com os olhos marejados ao trazer para a mesa as mulheres encarceradas, suas vidas, seus sofrimentos e abandono, além de nos falar um pouco sobre o jornal “Só Isso”. Por meio do jornal, as detentas, de forma sucinta, relatavam seus amores e sensação de abandono, de medo e de angústia. Além disso, cabe ressaltar que, no âmbito do Café Biográfico, nós, da graduação, tínhamos papel importante: antes da abertura de cada mesa, às quartas-feiras, eram exibidos vídeos com as leituras feitas por cada um de nós, escolhidos previamente, e que ilustravam um pouco do que seria cada manhã.

As PPP I, II e III se constituíram em momentos de desafios, de medos, de dúvidas e, é claro, de aprendizagem. Conheci lives da ANPED, o filme Um Conto Chinês, li minha primeira biografia e até ri com o fato de o meu amigo me dizer para eu escrever a minha! Li muitos textos, como “Luvas Brancas”, de John Kotre, “Práticas Pedagógicas em Imagens e Narrativas”, da professora Nilda Alves, resenha de Carla Bassanesi Pinsky e “Razões para guardar: a escrita ordinária em arquivos de professores/as”, de Ana Mignot e Maria Teresa Santos Cunha. Dediquei-me a várias leituras, conversas, discussões, trabalhos pensados e construídos juntos, aos encontros, de maneira geral, às aulas com as orientandas da professora Ana Mignot sobre suas pesquisas e diversas fontes e arquivos. Compreendi que a construção de conhecimento se dá a partir das buscas nas fontes existentes para pesquisa, assim como focalizei a importância do guardar, do ouvir e do ato de buscar materiais para conhecer e construir percursos pedagógicos, por exemplo.

Finalizar a PPP e esse trabalho é algo muito difícil, uma vez que me deparei com aprendizados diversos. Além disso, agora, é preciso escolher um tema para estuda na monografia. Gosto de pensar a infância e suas descobertas. A educação infantil é algo que me interessa e me causa curiosidade, principalmente porque vejo esse tema para além da troca de fraldas, de roupas e dos estímulos para a criança comer e se desenvolver.

Quantas coisas acontecem com uma criança, por exemplo, desde o seu nascimento até os três anos de idade? Qual o nível de desenvolvimento de um pequeno ser que chega ao mundo e chora, mama, evacua e dorme e que, em alguns meses, já está rolando, se arrastando e engatinhando? Quantas observações, estímulos e descobertas são feitas? Qual a relevância dos espaços e dos objetos no processo de desenvolvimento de uma criança? Ainda não consegui caminhar em busca de respostas para esses questionamentos acerca da primeira infância, de 0 a 3 anos. Mas, a abordagem Pikler e o método de Montessori me chamam a atenção. Penso que ter a criança como condutora do seu aprendizado, por meio de espaços propícios ao seu crescimento e desenvolvimento de forma natural, que facilitem sua tatilidade, aguçando sua curiosidade e sensações, sem objetos estruturados, sendo o adulto apenas um mediador de todo esse processo, mas responsável por cuidados diários que levem ao contato afetivo e à criação de vínculos, é essencial. Nesse sentido, assisti a algumas palestras do professor Paulo Fochi que gostei bastante. 

Questiono-me sobre o que estudar e pesquisar para me aprofundar no assunto. Trabalho na área da educação há dez anos. Comecei trabalhando em uma creche-escola privada e pequena e, hoje, trabalho em uma escola privada e grande, mas sempre estive com os pequenos. No meu atual trabalho, fico entre as crianças de um a três anos e isso me levou a observar o modo como o espaço e os objetos que o compõem são importantes no desenvolvimento natural da criança – espaço preparado por um adulto que tem o papel de mediador e, portanto, deve escolher, com cuidado, os elementos e objetos, uma vez que, cada um, terá um papel importante no processo, que também deve contar com o cuidado diário como fio condutor da criação do vínculo afetivo. Que autores poderiam me auxiliar na escrita?

Como citei, estive vendo alguns autores e acredito que suas contribuições serão importantes na minha pesquisa. Emmi Pikler, como médica pediatra, se dedicou ao trabalho acerca do desenvolvimento infantil. Ela defende que o cuidado propicia o vínculo afetivo, cuidado esse realizado de forma tranquila, e não mecânica, em espaços que transmitam confiança, com cuidadores que, com voz suave, vão compondo esse cuidado. Importa pensar, também, na parte do corpo que está sendo tocada e cuidada como forma de estreitar o vínculo afetivo, em busca de um desenvolvimento natural, tendo a criança como construtora de seu conhecimento; ela deve percorrer cada canto de acordo com o seu tempo e desejo, de modo que os espaços e o adulto atuem apenas como mediadores. Maria Montessori, por sua vez, era pedagoga e pensava na relação criança-adulto de forma cuidadosa e respeitosa. Acreditava ser necessário autonomia e liberdade na construção de suas habilidades de forma natural, pois acredita que já nascemos com as capacidades necessárias, só precisamos de boas condições para desenvolvê-las. Paulo Fochi, professor do curso de pedagogia, especializado em educação infantil e pesquisador, traz, em seus escritos, a importância de brincar e de se utilizar objetos desestruturados, como folhas, gravetos, colheres de pau, funis e copos, pois, no brincar, a criança cria hipóteses, socializa, desenvolve e cria conceitos. 

Acompanho, no meu dia a dia, o quanto as crianças se debruçam nesses elementos, nesses espaços e o quanto o contato íntimo do cuidado gera confiança e torna esse convívio sadio. Noto, também, o modo como o simples, feito com cuidado, atenção, segurança e olhar atento, é importante no desenvolvimento. Sendo assim, tenho pensado em me dedicar a uma pesquisa de observação, com ênfase na formação de seres afetivos, confiantes de suas capacidade e habilidades singulares, sob base teórica dos três autores citados. Minha intenção com esse trabalho será a de abordar o quanto as creches e as escolas que recebem essas crianças têm papel importante, bem como pensar em como, a partir de uma forma simples, isso pode ser feito, ressaltando, enfim, a importância dos espaços externos e do brincar ao ar livre.

Referências:

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DINIZ,Edinha. Chiquinha Gonzaga: uma história de vida.7° ed.Rio de Janeiro:Record:Rosa dos Tempos,1999.

FERRARI, Mario. Maria Montessori, a médica que valorizou o aluno. Nova Escola, 2008. Disponível em: <https://novaescola.org.br/conteudo/459/medica-valorizou-aluno>

GRANDES nomes da educação: Emmi Pikler. Diálogos Viagens Pedagógicas, 2022. Disponível em: <https://www.dialogosviagenspedagogicas.com.br/emmi-pikler>

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MIGNOT, Ana Chrystina Venancio; CUNHA, Maria Teresa Santos. Razões para guardar: a escrita ordinária em arquivos de professores/as. In: Revista Educação em Questão, Natal, v. 15, n. 11, jan./dez, 2006, p. 40-61.

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Participação na live do Café Biográfico