A resistência como ato de viver: reflexões por trás da máscara

Luana Goulart

Sem dúvida, a pandemia me pegou de surpresa. Estava na UERJ quando recebi a notícia de que naquele dia ocorreria uma interrupção nas atividades da instituição por conta do vírus da COVID-19. No começo, existia esperança de ser apenas 15 dias, mas eles se estenderam e dois anos se passaram. Recentemente, retornei ao campus, mas não como antes.

Minha mãe atuou na linha de frente na pandemia como técnica de enfermagem em uma unidade de emergência na zona oeste do Rio de Janeiro, e, logo no começo desses dois longos anos, ela apresentou febre, cansaço, perda do paladar e do olfato. Eu e minha família ficamos muito assustados, principalmente por ser o começo, momento em que não tínhamos muita informação sobre o que fazer, que remédio tomar e quais seriam os cuidados recomendados para lidar com a situação. Graças a Deus, não foi nada grave para ela, mas ninguém da minha família foi poupada pela COVID, de modo que, mesmo em isolamento, todos contraíram o vírus.

No meio de tudo, perdi minha bisavó de 90 anos por problemas no coração. Reunir-se em família foi inevitável por morarmos todos juntos em um mesmo terreno, mas doeu no peito não poder abraçá-los e acalentar, nem que fosse um pouquinho, pela dor do luto. Junto a todas as atribulações que a pandemia provocou, não evitei de me abalar com a ignorância de certas pessoas ao meu redor em relação às máscaras, que diminuíam a importância de seu uso e promoviam movimentos antivacina. Por isso, fiquei enfurecida por muito tempo. Ver pessoas em carnavais, festas aglomeradas, apoiando mentiras terríveis em relação à pandemia me deixou deveras transtornada, pois eu e minha família vibrávamos e torcíamos pela produção da vacina, enquanto elas desmotivavam o próximo a tomá-la, fazendo um verdadeiro desserviço social.

Todos esses fatores me deixaram um pouco mais ansiosa do que antes, por isso, comecei a fazer terapia para tentar acalmar a mente, pois me sentia doente psicologicamente e essas questões atingiram, especialmente, meu rendimento nos estudos. Não me adaptei ao ensino remoto e tive muita dificuldade com os prazos das atividades, a frequência e, principalmente, em relação ao meu prazer em estudar, que se tornou vazio. Ainda sinto esse desânimo, fruto de dois anos muito tensos, turbulentos e tristes, pois a morte vinha chegando para pessoas muito próximas e ainda não sei lidar completamente com a tristeza que vem de repente e me tira todas as forças.

Meu grande conforto nestes dois anos foi a terapia, que me fez muito bem, me dando coragem para lutar contra minha ansiedade e, principalmente, a minha paranoia, aprendendo várias formas de gostar mais de mim e de lidar melhor com meus sentimentos e quem sou. Apesar de toda onda melancólica que me assolou nesses últimos tempos, aprendi a ter esperança por dias melhores.

Há algumas semanas, voltei às aulas presenciais na UERJ. Confesso que havia esquecido a emoção de pisar em um lugar que me pertence tanto. Chega a ser mágico andar pelo campus. Ao retornar, senti prazer em estar ali, mesmo cruzando a cidade, enfrentando trens lotados, a madrugada fria do Rio de Janeiro, só para não chegar atrasada nas aulas. Ver a UERJ firme e forte, os calouros sorrindo, os professores cheios de vontade de dar aula me fez sentir novamente o prazer de estudar. Como pode a instituição ser pulsante como um coração? Sobreviveu a tantos desafios e, agora, a pandemia. Retornar despertou sentimentos que haviam desaparecido, aflorando no fundo do meu peito um desejo de permanecer firme, forte e viva, como a UERJ.

Eu refleti tanto sobre a vida durante a pandemia, sobre o valor dela para mim e para as pessoas que se esforçaram em cumprir o seu papel social aderindo ao distanciamento, ao uso das máscaras, respeitando, assim, o próximo. Ao mesmo tempo, percebi o olhar frio de algumas pessoas para com o seu semelhante e suas vidas. Em um governo tão maléfico e macabro, percebi que, para alguns, nossas vidas, de pessoas pobres, trabalhadoras, que usam o serviço público, que precisam vender a força do trabalho para sobreviver, não significam nada. Dói. Doeu perceber isso. Mas, assim como a UERJ, agora, sigo forte. E percebo que a resistência faz parte do ato de viver.

Saber que não foi só para mim um momento bem difícil me ajudou muito. Ouvir o relato de meus colegas de turma me fez perceber que, mesmo distantes, estamos mais próximos do que imaginávamos e que, no fim, estamos juntos e compartilhando muitos sentimentos, transmitindo empatia, força e vontade de ser um abraço acolhedor para o próximo. No fim, não foram só pessoas cruéis que protagonizaram esse momento pandêmico.

A oportunidade de ouvir tais relatos partiu da iniciativa da professora de PPP em Estudos Aplicados, Ana Mignot, que tornou a disciplina um espaço confortável para os alunos compartilharem suas experiências e sentimentos em relação à pandemia, propiciando reflexões sobre nossos sentimentos e sobre nós mesmos. Uma das reflexões que a disciplina despertou em mim foi a respeito da minha caminhada enquanto graduanda de Pedagogia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Lembro-me como se fosse ontem o quanto me dediquei para ter um bom desempenho no vestibular e ingressar na instituição. Quando comecei a me preparar tinha somente 16 anos e realizava meu ensino médio voltado para a formação de professores no Instituto de Educação Sarah Kubitschek. Não era fácil, pois o Curso Normal era integral e, por isso, acordava muita das vezes de manhãzinha para meu estágio em Educação Infantil e Ensino Fundamental, corria para a escola e, depois, corria novamente para o ponto de ônibus para não me atrasar para o estágio da EJA. Os únicos momentos que tinha para me dedicar às provas de vestibular eram aos fins de semana, no transporte público e nas madrugadas.

Foi sofrido, mas valeu a pena. Formei-me no mesmo ano em que comecei a me preparar e recebi meu maior presente de formatura assim que concluí o ensino médio: fui aprovada na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e, claro, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tinha muitas dúvidas para qual das instituições iria, mas, assim que pisei na UERJ para fazer minha pré-matrícula, fui domada por um sentimento de alegria, de paz e tive a certeza de que ali era o meu lugar.

Não estava enganada: andar pelos espaços da UERJ é como um abraço quente que permeia todo o meu ser e me enche de alegria. Sou completa na UERJ, e pertenço a ela tanto quanto ela me pertence. Mas, infelizmente, esse ciclo de acordar às 4 da manhã para não chegar atrasada nas aulas das 7h não durou muito, pois a pandemia logo o interrompeu. Nunca vou me esquecer do dia e do momento em que eu e meus colegas do Núcleo de Ensino em Pesquisa em História da Educação (NEPHE) recebemos a notícia de que ocorreria uma paralisação pela chegada do vírus ao nosso estado. Naquele momento, estávamos finalizando nosso Colóquio Internacional Independência e Instrução na América e África, que foi lindo e especial do começo ao fim. 

A incerteza tomou conta da minha mente, não apenas pela minha saúde, a dos meus amigos e a da minha família, mas realizar tarefas comuns do dia a dia se tornou um desafio, sempre com máscara, álcool em gel, sem poder me aproximar do próximo, com os serviços fechados e as ruas completamente desertas; tudo foi muito assustador e atribulado. Infelizmente, minha vida acadêmica não fugiu dessa confusão. Antes da interrupção tinha muita expectativa nas disciplinas que iria cursar, principalmente a PPP de Estudos Aplicados, da professora Ana Mignot, não só pelos elogios de outros estudantes sobre a professora, mas também pelo meu desejo de aprender mais sobre escrita e pesquisa acadêmica. 

Com pesar, dois anos da minha graduação foram remotos, e não gostei de estudar assim; tive muita dificuldade em estar presente nas aulas. Misturar minha casa, espaço de descanso e refúgio dos problemas externos, com a sala de aula me deixou muito ansiosa, pois, toda vez que procurava descansar, me vinha o pensamento de que poderia estar perdendo alguma aula naquele exato momento. Agradeço do fundo do meu coração aos docentes calorosos que entenderam minha dificuldade de adaptação, principalmente, a professora Ana Mignot. 

Mesmo que nossa dinâmica na matéria tenha se ajustado à plataforma AVA, criada pela UERJ e dedicada ao ensino emergencial remoto, nossa disciplina de PPP não perdeu a qualidade e continuou com sua essência de ser um ambiente acolhedor para todos os presentes. Durante esse período difícil, gostaria de destacar os excelentes materiais ofertados e recomendados pela professora, que nos ajudaram a discutir os textos propostos e a complementar as temáticas estudadas. 

Nossa disciplina foi muito importante para mim e agregou demais para minha formação como pedagoga. Nela, nossa turma teve contato com textos incríveis, como o “Luvas Brancas: como criamos a nós mesmos através da memória”, que aborda um pouco mais sobre memória e como ela pode ser fluída, falha e facilmente enganada, já que não lembramos de tudo, influenciando, até mesmo, nossos sentimentos e a maneira com que lidamos com nós mesmos e com o nosso meio.

Algo que nunca irei esquecer, por mais diluída que posso ser minha memória, é a PPP em Estudos Aplicados, que também possibilitou que participássemos do “Café Biográfico”, uma belíssima iniciativa da linha de pesquisa “Instituições, Práticas Educativas e História”, o qual reuniu pesquisadores, professores, estudantes de pedagogia, de mestrado, doutorado e toda uma comunidade educativa interessada nas temáticas voltadas à escrita, à memória e à profissão docente. Com 13 encontros virtuais viabilizados pelo canal do ProPEd no YouTube, a iniciativa protagoniza em cada live uma nova discussão que destaca registros autobiográficos, educação, pedagogia científica, olhando para o passado ao mesmo tempo em que traz novas abordagens e debates para o nosso presente e futuro.

Dentre as lives, destaco a intitulada “Escrita da vida, educação e história: olhares para as fontes”, que registra a importância de se escrever sobre a vida, prestigiando a educação e as nossas histórias, utilizando as autobiografias como fontes que constroem uma caminhada sobre a relevância da prática da leitura e da escrita, como forma de empoderamento e de protagonismo dos sujeitos. Além disso, a live possibilitou tratar dessas temáticas diante da pandemia, nos auxiliando a ter um olhar mais esperançoso para a vida. Sem dúvida, o “Café Biográfico” foi um sucesso, tendo, ainda, possibilitado o enriquecimento de todos os seus espectadores, ao criar possibilidades de pesquisa e apontar soluções e formas de amenizar problemas existentes na sociedade.

Durante a PPP tive a oportunidade de realizar uma apresentação sobre a biografia de Dom Pedro II, intitulada “As Barbas do Imperador”, da autora Lilia Moritz Schwarcz. Compartilhar com meus colegas de classe um trabalho tão importante, de uma das pesquisadoras que mais admiro, foi uma experiência maravilhosa, que, mesmo em plena pandemia, foi prazerosa. Ouvir dos outros alunos as obras que escolheram, conhecer mais do que foi um subterfúgio literário em um período tão complexo foi aprender através do alívio, pois, com as biografias, mergulhamos em novos mundos e conhecemos novas pessoas, mesmo sem sair de casa, em pleno isolamento social.

Como em um piscar de olhos, já estou na reta final da graduação e logo iniciarei minha monografia. Durante meu curso, tive a oportunidade de ser bolsista do professor José Gondra e integrar o Núcleo de Ensino e Pesquisa em História da Educação da UERJ. Esta oportunidade despertou, em meu peito, a paixão pela História da Educação, mais precisamente pela Historiografia da Educação Brasileira e, com isso, não poderia deixar de tornar essa paixão o meu foco no trabalho de conclusão do curso de Pedagogia.

A pesquisa empreendida pelo NEPHE foi dividida em subgrupos e buscou analisar efemérides e movimentos educativos, sociais e políticos concernentes aos seus respectivos períodos, sendo eles o do cinquentenário (1872), do centenário (1922) e do sesquicentenário (1972) da Independência, a fim de constituir o projeto de pesquisa, dada a sua articulação com o Bicentenário da Independência do Brasil, que ocorrerá em 2022. Junto a este projeto, compus um dos capítulos do livro “Independência e Instrução no Brasil: História, Memória e Formação” com o grupo que integrei, no qual tratei do Centenário da Independência com o objetivo de articular a análise dos processos emancipatórios, e as relações, com o processo de formação das populações e com efemérides.

Nesta jornada, tive contato com o jornal católico “A União”, que me despertou o interesse em relação às manifestações católicas durante o Centenário da Independência do Brasil. Desta forma, pude refletir a respeito do papel da educação no processo emancipatório e pude compreender que se trata de uma possibilidade de narrar a história que nos constitui, indagando como nos formamos sujeitos, como nos relacionamos com nós mesmos e com os aparatos institucionais, sem perder de vista os projetos vislumbrados para o Brasil. Entendo, hoje, que não há apenas uma história a ser contada, uma única narrativa educativa, mas que a pluralidade e diversidade fazem parte da nossa história como nação, mesmo que, por vezes, ela seja invisibilizada e apagada pela educação escolar. Pensar nessas questões permite renovar as apostas em favor de uma educação como caminho para a liberdade e não para uma narrativa inventada, tal como o jornal “A União” fez em sua edição especial em comemoração ao Centenário da nação, onde a educação católica era a única efetiva e viável para o progresso nacional e para uma boa formação de sujeitos.

Para essa pesquisa, gostaria de aproveitar os levantamentos realizados para a escrita do capítulo do livro em destaque, utilizando, principalmente, o acervo disponível na Hemeroteca Digital, da Fundação Biblioteca Nacional, investigando edições do jornal “A União” que tratem da educação, colhendo, ainda, fontes oficiais das comemorações do Centenário, como a Exposição Internacional do Centenário – Rio de Janeiro 1922-1923; Relatórios dos Trabalhos (1926); Guia Oficial da Exposição do Centenário (1922); as revistas Illustração Brasileira, Orgam Official da Comissão Executiva do Centenário da Independência e A Exposição de 1922; Orgão da Comissão Organisadora; as edições especiais de alguns periódicos publicados no dia 7 de setembro de 1922 – O Paiz, Jornal do Commercio e A União –, a obra Livro de Ouro: Comemorativo do Centenário da Independência do Brasil e a Exposição Internacional do Rio de Janeiro, elaborado pelo Annuario do Brasil. Ademais, pretendo utilizar outras fontes e materiais levantados e produzidos pelo referido grupo de pesquisa. 

Mais do que nunca, percebo que quero trabalhar na área de História da Educação e ter a oportunidade de trazer um tema que me encanta tanto para minha monografia, que representa o encerramento de um ciclo muito bonito da minha vida. Apesar das dificuldades ocasionadas pela pandemia, foram os quatro anos mais especiais da minha vida, os quais me possibilitaram refletir que precisamos resistir a muitas dores para viver e que, mesmo por trás das máscaras, passando por dois anos intensos e difíceis, não desisti de estudar, do meu curso, da educação e de utilizar de todas as dificuldades como força para impulsionar meu desejo de estudar o que amo, que é a História da Educação Brasileira. Por fim, inspirada pela live “Escrita da vida, educação e história: olhares para as fontes”, do “Café Biográfico”, busco fazer da minha monografia uma oportunidade de empoderar e dar o protagonismo a sujeitos e histórias uma vez já silenciadas, desatando as amarras que calam nossa história.

Participação na live do Café Biográfico